Daniel
R. Esparza - publicado em 29/01/26
O que se fez carne é chamado de ὁ λόγος — o Logos — e João trata
esse Logos como alguém, não como algo. E quanto a <em>Verbum</em>?
E "Palavra"?
Quando os cristãos falam da Encarnação, surge uma pergunta
enganosamente simples: o que foi encarnado? Um conceito? Uma palavra dita em
voz alta? Um princípio filosófico? O Prólogo do Evangelho de João responde com
cuidado gramatical e ousadia teológica. O que quer que tenha se feito carne é
chamado de ὁ λόγος —
o Logos — e João trata esse Logos como alguém, e não como
algo.
Logos: Um termo com profundidade e direção
João abre seu evangelho dizendo: “Ἐν ἀρχῇ
ἦν ὁ λόγος” (“No princípio
era o Logos”).
A palavra grega logos possui um campo
semântico vastíssimo. Pode significar palavra, discurso, relato, explicação,
argumento ou razão. Seu verbo de origem, legein, significava
originalmente “reunir” ou “coletar”.
Um logos é aquilo que reúne a realidade em
uma ordem inteligível: uma narrativa montada a partir de eventos, uma lógica
extraída de causas, um padrão que dá sentido às coisas.
Na filosofia grega, o logos podia até
designar a estrutura racional do cosmos. João se apropria dessa riqueza e a
reformula. Ele atribui relacionamentos ao Logos.
O Logos está “com” Deus (pros ton theon), uma
expressão que sugere orientação e presença, e “era Deus” (theos ēn ho logos).
A sintaxe é fundamental aqui: o Logos compartilha a natureza de Deus sem ser
idêntico ao Pai. Desde a primeira linha, o Logos de João se relaciona.
Por que “Palavra” ainda funciona — com cautela
As Bíblias em português (e inglês) traduzem logos como
“Palavra” (ou "Verbo"), uma escolha herdada de séculos de leitura
cristã. Nas Escrituras, “palavra” frequentemente significa uma expressão eficaz
— um discurso que realiza aquilo que declara. A própria Criação se desenrola
por meio de tal fala: Faça-se... A “Palavra” no Evangelho de
João é a autoexpressão de Deus, a vida divina comunicada para fora.
Isso se torna explícito em João 1, 14: “καὶ ὁ λόγος σὰρξ
ἐγένετο” —
“e o Logos se fez carne”. O verbo egeneto (“tornou-se” ou
“fez-se”) sinaliza uma mudança real na história, e sarx (“carne”)
aponta para a condição plena da vida humana: mortalidade, vulnerabilidade,
existência corporal. Ao usar "carne", João escolhe deliberadamente um
termo que resiste à espiritualização. O que entra na história compartilha
nossos limites materiais.
Verbum: A herança latina no Evangelho
Quando o cristianismo latino traduziu logos como verbum,
utilizou uma palavra que combina fala com ação. Este é o gênio da tradução de
São Jerônimo. Verbum pode significar uma palavra falada, mas é
também a raiz de “verbo”, a palavra do fazer, da ação. Existiam outras opções
em latim — ratio (razão) ou sermo (discurso)
— mas verbum preservou o sentido de uma expressão que age.
Essa escolha moldou a teologia.
Santo Agostinho falava do Verbum como o
autoconhecimento do Pai, eternamente gerado, pessoal, vivo. O termo latino
sustentou a reflexão sobre o Filho como a própria expressão de Deus, sem
dissolvê-lo em um princípio abstrato. A Igreja mais tarde insistiria, com
precisão, que o Filho eterno assumiu uma natureza humana completa. Como afirma
o Catecismo, o Filho “tornou-se verdadeiramente homem, permanecendo
verdadeiramente Deus” (CIC 464).
A gramática, não a metáfora, resolve a questão
A linguagem de João é concreta. Ele escreve sobre o Logos —
definido, pessoal — que entra no tempo. O cristianismo começa com a afirmação
de que a própria autoexpressão de Deus tem uma história humana, um corpo humano
e um nome humano. A Encarnação, no relato de João, não é a chegada de uma
ideia, mas o advento de uma pessoa que pode ser vista, ouvida e tocada.

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