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terça-feira, 18 de maio de 2021

Irmã Alicia de Jerusalém: "Perdão é palavra profética, não retórica"

Terra Santa: crianças em refúgios | Vatican News

"A violência que irrompeu nas ruas é ainda mais preocupante do que a violência manifestada com bombas que explodem edifícios (...) A sociedade está doente por dentro". O testemunho da provincial para o Oriente Médio das Irmãs Combonianas.

Vatican News

As palavras do Papa Francisco impressionaram muito a Irmã Alicia Vacas, provincial das Irmãs Combonianas para o Oriente Médio. Entrevistada pelo Vatican News, a religiosa insiste no fato de que o conflito se arrasta por muito tempo, e que "há uma desigualdade gritante: na ajuda, nas possibilidades, no uso das forças militares". Em mais de trinta anos, nenhuma resposta foi dada", repreende a Irmã. "Nos últimos meses, temos visto um aumento das tensões e dificuldades. O último golpe de misericórdia foi a incursão do exército e o ataque à mesquita de El Aqsa; até mesmo os cristãos ficaram chocados. Ficou claro que tal afronta teria consequências muito graves, e foi o que aconteceu".

A sociedade está doente por dentro

"A violência não leva a lugar nenhum", repete Irmã Alicia. As esperanças da religiosa são colocadas na comunidade internacional, "para que possa contribuir para deter esta loucura, este abismo". E conta: "Estamos vendo coisas que não tínhamos visto desde que chegamos aqui, coisas que não aconteceram durante a segunda intifada. Os conflitos dentro das comunidades, que mais ou menos coexistiam pacificamente - explica - são assustadores para o nosso presente, mas acima de tudo para o nosso futuro. A violência que irrompeu nas ruas é ainda mais preocupante do que a violência manifestada com bombas que explodem edifícios, mesmo que seja menos visível, menos ‘escandalosa’. O tecido social está ferido, profundamente dilacerado. A sociedade está doente por dentro".

Preocupados com a "amputação moral" dos jovens

"Toda vida humana é preciosa. A proporção na morte de civis e crianças é óbvia. E isso segue sempre adiante". A Irmã Alicia insiste no aspecto de que "este ataque a Gaza corre o risco de desviar a atenção do coração, das causas do conflito, que teve origem em Jerusalém por questões muito concretas: a impunidade dos colonos, o despejo de suas casas, a dificuldade de os palestinos viajarem para a Cidade Santa.... Infelizmente, não são dadas resposta para os problemas reais que as pessoas vivem diariamente". As missionárias comboniana mostra uma realidade sem filtros, em Jerusalém Oriental, marcada por uma aparente calma, muito tensa, falsa. "A presença dos militares é muito forte, mesmo dentro da parte árabe. Em todos os lugares há barreiras. Às vezes as pessoas conseguem ir ao trabalho – afirma a Irmã - às vezes não. Isto não é normal. Muitas vezes há confrontos entre jovens e soldados e a repressão é muito forte. Há muitos pontos dolorosos. É o recrudescimento de um conflito no qual há vítimas por todos os lados. "Estou muito preocupada com as amputações morais dos jovens", continua a religiosa. "Quando se chega a tal devastação, significa ter que fazer um corte drástico nos valores. Ambos os lados estão muito feridos, amputados".

Ser "pontes": a missão dos combonianos nas periferias

A missão das combonianas, em todos os lugares, é estar nas periferias. Em Jerusalém esta peculiaridade é muito evidente: vivem no Monte das Oliveiras, nos três lados do jardim da casa passa o muro de separação que divide a cidade de Jerusalém dos territórios ocupados. "Quisemos preservar uma presença também do outro lado do muro: pode ser vista, mas não se pode encontrar facilmente". Temos muito cuidado em colaborar com ambos os lados, com os dois povos da Terra Santa", ela esclarece, mencionando o trabalho tanto com ativistas israelenses, "que realmente querem abrir brechas, encontrar soluções, construir pontes", quanto com palestinos.

Em Israel, o trabalho é com médicos pelos direitos humanos, com organizações que trabalham especialmente com refugiados e requerentes de asilo. Na Palestina o compromisso é com os beduínos, no deserto de Judá, através de uma rede de creches, projetos para a promoção da mulher, animação missionária na Igreja. E conclui referindo-se à presença de algumas "irmãs na comunidade católica de língua hebraica que são particularmente afetadas por tensões políticas e sociais. É uma minoria dentro da minoria".

“Perdão” é a palavra profética, caso contrário não se resolve

Um apelo à reconciliação e ao perdão parece quase retórico, mas talvez seja precisamente essa a palavra profética, de acordo com a Irmã Alicia. "Se não formos capazes de quebrar o círculo de violência, mesmo que sintamos que estamos no caminho certo, não sairemos dele. A palavra do Papa não é retórica. Tenhamos essa coragem de quebrar o círculo, mesmo que não sejamos capazes por causa do peso da história; inventemo-lo, caso contrário não sairemos dele.

Vatican News

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF