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segunda-feira, 24 de maio de 2021

TEOLOGIA: Cristo, o Espírito Santo e a Igreja (Parte 4/5)

Ecclesia

Cristo, o Espírito Santo e a Igreja

Ioannis D. Zizioulas*
Trad.: Pe. André Sperandio

c) O bispo e a comunidade

Agora podemos nos dedicar às instituições a nível da greja local em si, sempre tendo em conta os mesmos princípios teológicos. Aqui, novamente a comunhão é constitutiva ontologicamente. Porém, como já fizemos notar em conexão com a Igreja universal, há de se manter uma relação adequada entre o «uno» e os «muitos». No caso da Igreja local, o uno está representado pelo ministério do bispo, enquanto que os muitos» estão representados mdiante os outros ministérios e o laicato. Há um princípio fundamental na eclesiologia ortodoxa que data dos primeiros séculos e que reflete a síntese adequada entre a cristologia e a pneumatologia, o que venho advogando. Este princípio é que o «uno» - o bispo - não pode existir sem os «muitos» - a comunidade -, e os «muitos» não podem existir sem o «uno».

Em primeiro lugar, consideremos o princípio de que o «uno» é inconcebível sem os «muitos». Isto se expressa de várias formas a nível canônico. (a). Por um lado, não há ordenação episcopal à margem da comunidade [25]. Posto que a ordenação é uma ação ontologicamente constitutiva do episcopado, fazer depender a ordenação do bispo da presença da comunidade é fazer a comunidade constitutiva da Igreja. Não há Igreja sem comunidade, do mesmo modo que não há Cristo sem Corpo ou o «uno» sem os «muitos». (b). Por outro lado, não há episcopado sem uma comunidade unida a ele [26]. Neste aspecto, há que se destacar um detalhe que marca uma peculiaridade da Igreja ortodoxa comparada com a Igreja católica: o nome da comunidade é mencionado na oração consecratória do bispo. Posto que na Igreja ortodoxa não há missio canônica ou distinção entre a potestas ordinis e a potestas jurisdicciones, o fato de que a comunidade é mencionada na oração consecratória significa que a comunidade forma parte da antologia do episcopado: não há bispo, nem sequer por um instante ou teoricamente, que não esteja condicionado por alguma comunidade. Os «muitos» condicionam ontologicamente o «uno».

Entretanto, de novo isto não é toda a história. Também é verdade o oposto, isto é, que os «muitos» não podem existir sem «uno». De maneira concreta isto se expressa das seguintes formas: em primeiro lugar, não há batismo, que é o ato constitutivo da comunidade, isto é, a base ontológica do laicato, sem o bispo. Os «muitos» não podem ser «muitos» sem o bispo. Por outro lado, não há nenhum tipo de ordenação sem a presença do bispo; o bispo é condição para a existência da comunidade e para sua vida carismática.

d) O caráter icônico das instituições eclesiais

À mútua interdependência entre o «uno» e os «muitos», a esta dupla estrutura da Igreja, se lhe acrescenta outra condição para a sua existência: tanto a ordenação do bispo, que requer a comunidade, como a ordenação do laicato (batismo) ou de qualquer outro ministério, que requer o bispo, deverão estar unidas à eucaristia. Isto me parece indicar que não é suficiente colocar as instituições eclesiais no contexto dessa síntese adequada entre o «uno» e os «muitos». Esse é só um dos componentes da pneumatologia. O outro, mencionado anteriormente, é a escatologia; e, segundo me parece, este aspecto se expressa mediante o fato de que tanto batismo como a ordenação deverão ter lugar no contexto da eucaristia. A eucaristia, ao menos na compreensão ortodoxa, é um acontecimento escatológico. Nela, não só coexistem e se condicionam mutuamente o «uno» e os «muitos», senão que há algo mais: as instituições eclesiais são reflexos do Reino. Em primeiro lugar, são reflexos: a natureza das instituições eclesiais é icônica, isto é, sua ontologia não está radicada na instituição mesma, mas na sua relação com algo mais, com Cristo ou com Deus. Em segundo lugar, são reflexos do Reino: todas as instituições eclesiais devem ter alguma justificação por fazer referência a algo definitivo e não simplesmente por conveniência histórica. São certamente ministérios destinados a servir necessidades históricas e temporais, mas não podem reclamar um estatuto eclesial num sentido estrutural fundamental. A história nunca é uma justificação suficiente para a existência de uma instituição eclesial, faça referência à tradição, à sucessão Apostólica, à escritura ou a uma necessidade histórica real. O espírito santo aponta para mais além da história -claro, não contra ela, ainda que possa e deva muitas vezes apontar contra a história mediante a função profética do ministério -. As instituições eclesiais ao estar condicionadas escatologicamente se convertem em sacramentais, no sentido de estar situadas na dialética entre história e escatologia, entre o  e o ainda não. Portanto, perdem sua auto-suficiência, sua ontologia individualista, e existem epícleticamente, isto é, para a sua eficácia dependem continuamente da oração a oração da comunidade. Não é na história onde as instituições eclesiais encontram sua certeza, (sua validade) mas na constante dependência do Espírito Santo. Isto é o que as fazem sacramentais, o que na linguagem da Igreja ortodoxa pode chamar-se icônicas.

Notas:

[25]. Cf. infra, os capítulos5 e 6 (p. 185ss e 223ss respectivamente).

[26]. Ibid.

Referência:

*ZIZIOULAS, Ioannis D. . Cristo, el Espírito y la Iglesia. In: ZIZIOULAS, Ioannis D. El Ser Eclesial. Persona, comunión, Iglesia . 1ª. ed. Salamanca: Sígueme, 2003. cap. 3, p. 137-155.

ECCLESIA

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF