Pierre
D’Elbée - publicado em 10/04/26
Num mundo que busca controlar tudo, mas onde o futuro é
cada vez mais incerto, o conhecimento bruto não oferece as chaves para uma boa
decisão. Na incerteza, explica o consultor de empresas Pierre d’Elbée, um bom
tomador de decisões compromete-se com todos os recursos de sua pessoa.
Para qual futuro da vida profissional estamos caminhando?
Não é fácil responder a essa pergunta, tamanha foi a transformação da paisagem
nos últimos anos. A irrupção da Inteligência Artificial (IA) desperta o medo da
substituição de muitas competências a curto ou médio prazo. Se os efeitos
econômicos dos conflitos globais já são visíveis, qual será sua duração e
impacto real? O clima social, cada vez mais tenso, como irá evoluir? Como
desenvolver um pensamento sólido diante do fluxo de informações que nos inunda
diariamente?
A consequência desta incerteza crescente não é apenas
prática, mas existencial. A IA parece questionar nossa contribuição ao mundo,
agindo de forma mais rápida e melhor do que nós em atividades intelectuais e
criativas antes reservadas aos seres humanos. Daí surge uma sensação de
desestabilização profunda: que contribuição ainda podemos trazer ao nosso
planeta? Estaremos condenados a nos tornar espectadores de um mundo que já não
precisa de nossas habilidades? Eis-nos diante de uma incerteza global, persistente
e difícil de analisar.
Renunciar ao conhecimento total
Diz-se que Leibniz foi o último "espírito
universal" capaz de dominar todo o conhecimento de seu tempo. Depois dele,
o sonho de um saber enciclopédico nunca mais esteve acessível... até a chegada
da IA, que hoje coloca ao alcance das mãos um reservatório imenso de
conhecimento em todos os registros.
Montaigne já defendia uma "cabeça bem
feita" em vez de uma "cabeça bem cheia":
integrar a sabedoria ao conhecimento, o sentido à erudição. Para ele, um
julgamento iluminado prevalece sobre o conhecimento acumulado; isso pressupõe
pensamento crítico e discernimento para separar o essencial do acessório. A
última palavra do saber não seria, portanto, o conhecimento bruto, mas a
precisão com a qual entendemos o mundo e agimos sobre ele.
Simplificar a vida profissional
Segundo Paul Valéry: "Tudo o que é simples é
falso; mas tudo o que não o é, é inutilizável". É necessário, então,
encontrar o equilíbrio certo entre a simplicidade que trai a realidade e a
complexidade que paralisa a ação. Em um mundo incerto, o perigo não está em
simplificar, mas em esquecer que simplificamos: devemos ter em mente que a
realidade é muito mais complexa do que percebemos.
Associar a nuance à simplificação é dar prova de sabedoria.
O "bom senso" não é uma simplificação ingênua de uma situação
complexa, mas uma forma de discernimento encarnado.
Sentir
Em uma situação de incerteza, deve-se apelar a todos os
recursos do seu íntimo para avançar apesar da imprecisão. Para aqueles que eram
chamados a tomar decisões difíceis em tempo real, o General Colin Powell dava
este conselho:
"Use a fórmula P = 40 a 70. P é a
probabilidade de sucesso. Quando a porcentagem de informações obtidas atingir
entre 40% e 70%, vá em frente com coragem!"
Se essa fórmula visa mobilizar energia e paixão, podemos
aplicá-la também à intuição — ao nosso conhecimento difuso e às "pequenas
percepções" que captam sinais fracos em situações complexas. Na incerteza,
a decisão torna-se melhor quando associa o julgamento objetivo a um sentimento
subjetivo. O compromisso que alguém assume ao sustentar uma decisão aumenta as
chances de sucesso, mesmo que ela não seja "objetivamente" a melhor
opção inicial.
Aristóteles nos dizia...
...que a prudência diz respeito ao que "pode ser de
outra forma", ou seja, às situações mutáveis, pouco previsíveis e novas.
Neste contexto, o phronimos — o homem prudente — é capaz de
deliberar e decidir sem a garantia de um modelo pronto. Na ausência de certeza,
ele busca a precisão.
O homem prudente hoje é aquele que visa um equilíbrio
praticável, discernindo o que importa aqui e agora, ajustando sua ação à
realidade em tempo real. Ele não substitui seu julgamento por um algoritmo. Sua
habilidade decisiva não é buscar um saber exaustivo, mas sim a qualidade do
julgar. Num mundo incerto, esta é uma virtude a ser redescoberta.

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