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domingo, 1 de janeiro de 2023

Sem nós, não é possível a paz

30giorni.it
Arquivo 30Dias - 12/2010

Sem nós, não é possível a paz

Do Iraque e Afeganistão à crise entre Israel e Palestina, das relações com a Europa ao diálogo entre islã e cristianismo. O ponto de vista da República Islâmica do Irã em um artigo do vice-ministro do Exterior para a Europa

de Ali Ahani, vice-ministro do Exterior

A partir da esquerda, o presidente paquistanês Asif Ali Zardari, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o afegão Hamid Karzai na cúpula do Economic Cooperation Organization (Eco), em Istambul, a 23 de dezembro de 2010 [© Afp/Getty Images]

A colaboração com a Europa
As relações com a Europa remontam à antiguidade, sempre houve várias esferas de colaboração, mesmo com altos e baixos. Atualmente são os comuns interesses reais a solicitar-nos para que usemos todas as nossas potencialidades, superando alguns pontos de vista políticos por parte europeia. Por exemplo, o comércio. Alguns anos atrás o volume do comércio bilateral com a Europa representava 60% das trocas comerciais totais iranianas, hoje é 40%. Os europeus foram substituídos por outros. E se a Europa mantiver esta tendência, os volumes serão reduzidos ainda mais. As trocas com a China, que antes chegavam a 2 bilhões de dólares, agora chegam a 30 bilhões. Os empresários não esperam.
Outro âmbito de colaboração é a energia. A Europa depende principalmente da Rússia, e a União Europeia procura diversificar as fontes de provimentos. O Irã é uma fonte de petróleo e gás com o qual a Europa pode contar, mesmo assim ignora, por opção política. O projeto Nabucco [o transporte tubular que levará gás da Ásia para a Europa, bypassando pelo Irã, ndr] demonstra isso. Os próprios especialistas afirmam que preterir a grande fonte energética de gás iraniano no futuro não dará margens de lucros ao Nabucco.
O diálogo com os europeus sempre foi vivo, em nível de direitos humanos, de investimentos, de luta às drogas, de imigração, de meio ambiente. Hoje o dossiê nuclear bloqueou tudo, ou pelo menos enfraqueceu-o muito.

Um olhar sobre a crise atual
Agora olhemos às crises em curso: Iraque, Afeganistão, Paquistão, processo de paz entre Israel e Palestina. Áreas nas quais os Estados Unidos e os governantes europeus têm dificuldade em encontrar uma medida.
São todas crises que queremos atenuar. Depois da ocupação americana do Iraque a nossa posição foi logo clara: contra a invasão e a favor de um processo democrático no país. Nós fomos os primeiros a reconhecer o Iraque democrático, apesar das críticas de alguns países árabes que nos acusavam de colaborar com os Estados Unidos, enquanto para nós era uma linha de princípio em favor da democracia. Tivemos contatos com vários grupos presentes no país, favorecendo um governo de coalizão nacional, afirmando também que as potências de ocupação devem deixar o país o quanto antes. Felizmente o processo político foi para esta direção, e com estas bases sempre apoiamos o governo iraquiano. Os problemas não terminaram, mas a direção tomada pelo país está certa.
O Afeganistão tem a sua complexidade específica. Três fatores complicaram uma crise já complexa: extremismo, terrorismo e droga. Fatores também inter-relacionados. Depois de nove anos de ocupação militar pergunto-me se a estabilidade e a segurança melhoraram. A minha resposta é negativa.
No que se refere à droga: antes da ocupação a produção era de 200 toneladas por ano, no ano passado chegou-se a 7 mil toneladas, das quais mais de 90% desembarcam na Europa. Às interrogações sobre as atividades de luta às drogas os americanos respondiam que a sua presença tinha como função o antiterrorismo, não antidroga. Evidentemente para eles não era um problema. Para a Europa sim. Propusemos insistentemente aos europeus encaminhar uma colaboração para bloquear o fluxo do ópio na fonte. Responderam-nos positivamente, mas nunca prosseguiram no assunto.
O contexto afegão torna-se cada vez mais preocupante. O extremismo se acentua. A nossa opinião é que a solução da crise afegã deve ser encontrada na esfera regional. Os de fora não conhecem as raízes das crises, e apenas com militares europeus e americanos a luta ao terrorismo não tem sucesso. Com efeito, nós encaminhamos uma iniciativa de nível regional com o Afeganistão e o Paquistão, contando com chefes de Estado e Ministros do Exterior, realizando várias reuniões, e pretendemos intensificar estas conversas. Acreditamos que podemos chegar a soluções concretas. O apoio da comunidade internacional, da ONU e dos países europeus, poderia contribuir positivamente: são os nossos auspícios. E certamente a Itália poderia ter um papel importante para os projetos comuns de reconstrução do Afeganistão e a criação de empregos, para que no país seja criado um ambiente econômico mais favorável.
Paralelamente pode-se treinar as forças afegãs de segurança, da polícia e do exército: assim se resolve a crise.
O Irã tem 940 quilômetros de fronteira com o Afeganistão, em trinta anos entraram no nosso país três milhões de refugiados, regulares e irregulares, e nós sustentamos sozinhos o grande custo de acolhida para poder ajudá-los. Atualmente há 330 mil crianças afegãs que estudam no Irã e 5 mil universitários. Isso sem falar dos problemas sociais que criam no nosso país, violências, homicídios...
Criar estabilidade no Afeganistão é nosso interesse nacional. Por isso estamos abertos à colaboração com os europeus.
Na questão do Oriente Médio, até agora a União Europeia não teve um papel determinante, é doador e espectador. Espera-se que depois do Tratado de Lisboa possa encontrar uma colocação melhor como ator independente. O contexto médio-oriental é complicado, houve muitos projetos de paz e pergunto-me porque nenhum deles jamais deu frutos.
Uma das razões é o comportamento de Israel, que não acredita na paz e ignora as resoluções das Nações Unidas, para não falar da questão das colônias e do assédio de Gaza. Também neste caso quem projeta a paz não considerou as raízes da crise, entre as quais há, em evidência, o destinos dos refugiados palestinos, que devem poder voltar aos seus lugares de origem e decidir com voto democrático o próprio futuro. Se isso acontecer, será um bom sinal para o futuro do Oriente Médio. Não podemos ignorar os protagonistas concretos em campo. Em Teerã sempre criticamos quando a União Europeia culpa o Hamas e as forças palestinas, considerando-os terroristas e não interlocutores. Mas eles são os verdadeiros protagonistas do cenário palestino, e qualquer projeto de paz deve passar por eles.
Sobre a tentativa de paz do governo americano até agora estamos céticos. Como pode o governo americano dar atenção adequada aos problemas se apoia as posições de Israel e das lobby judaicas internas, em particular sobre o tema da volta dos refugiados e da condição palestina em geral? Considerando tudo isso, não se pode chegar a uma solução.
Nós pensamos assim, talvez estejamos errados, mas tento exprimir-me com franqueza.

A partir da esquerda, o Ministro do Exterior brasileiro Celso Amorim, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, e o ministro do Exterior turco Ahmet Davutoglu, por ocasião da assinatura do acordo para a troca de urânio de baixo enriquecimento por combustível nuclear, em Teerã, a 17 de maio de 2010 [© Associated Press/LaPresse]

As relações com a Santa Sé
E agora falemos das relações com a Santa Sé. Dos meus encontros recentes com Sua Excelência Mamberti e o cardeal Tauran compreendi que há ótimas chances para uma colaboração. A visita do cardeal Tauran no Irã, para a 7ª Sessão do Encontro Inter-religioso entre Igreja Católica e Islã, é a prova disso. Com a Santa Sé partilhamos o parecer sobre importantes questões globais. Um dos problemas que aflige a humanidade é o afastamento da religião. Ambos notamos que aumenta a distância entre sociedade e religião, e que algumas vezes há fobia contra a religião, como no projeto daquele pastor americano que queria queimar os exemplares do Alcorão. A Santa Sé, na pessoa do cardeal Tauran, adotou uma clara posição de condenação, neutralizando a iniciativa deste senhor, enquanto, infelizmente, algumas autoridades europeias premiam personagens que ofendem o islã e a religião em geral. É um percurso perigoso. Para impedir tais fenômenos pede-se um compromisso comum. Nós compartilhamos a declaração final do Sínodo dos Bispos do Oriente Médio com relação ao juízo sobre a ocupação de terras alheias, e a necessidade de um desarmamento nuclear mundial.
Acolhemos favoravelmente o diálogo entre islã e cristianismo. As minorias religiosas devem ser respeitadas. Assim como esperamos que os direitos das minorias islâmicas na Europa sejam respeitados é do mesmo modo óbvio que sejam respeitadas também as minorias cristãs presentes no Oriente Médio e em outros países. Nós insistimos na convivência pacífica fundamentada no respeito: o Irã constitui um exemplo de convivência pacífica entre muçulmanos e cristãos. Estes últimos, assim como os judeus, gozam de total respeito e têm seus representantes no Parlamento, as suas igrejas e as suas sinagogas gozam da liberdade de culto. Isso deve ser válido em todos os lugares no mundo.

A questão da Turquia
Sabemos que alguns países europeus se opõem à adesão da Turquia à União Europeia. Devemos ser realistas. Sabemos que tal oposição tem motivações históricas que levam ao tempo dos otomanos... Porém, a realidade de hoje criou uma condição devido à qual a Turquia, ao invés, poderia tornar-se um Estado membro. Pergunta-se se isso seja do interesse da Europa. Certamente a presença da Turquia na União Europeia ajudará esta última a entender melhor o mundo islâmico. E, somando tudo, é do interesse da União Europeia. Apesar das reservas de alguns países.

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF