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quarta-feira, 25 de março de 2026

Papa: na Igreja, a hierarquia existe em função do serviço, não do poder

Audiência Geral, 25/03/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

A partir do ensinamento da Lumen Gentium, no seu capítulo III, Leão XIV dedicou sua reflexão à dimensão hierárquica do novo Povo de Deus, que tem seu fundamento nos Apóstolos, colunas vivas escolhidas por Jesus.

Thulio Fonseca - Vatican News

O céu ensolarado na Praça São Pedro acolheu milhares de fiéis e peregrinos que vieram ao Vaticano para a Audiência Geral com o Papa Leão XIV, nesta quarta-feira, 25 de março. Em sua catequese, o Santo Padre deu continuidade ao ciclo de reflexões sobre os documentos do Concílio Vaticano II, aprofundando o capítulo III da Constituição dogmática Lumen Gentium, dedicado à estrutura hierárquica da Igreja.

Ao iniciar sua reflexão, o Pontífice recordou que a Igreja encontra seu fundamento nos Apóstolos, escolhidos por Cristo como sustentação viva do seu Corpo, e sublinhou que essa dimensão hierárquica "opera ao serviço da unidade, da missão e da santificação de todos os seus membros”.

Fundamento apostólico da Igreja

Leão XIV também explicou que a estrutura hierárquica da Igreja está intimamente ligada à continuidade da missão confiada por Cristo aos Apóstolos. Por meio da sucessão apostólica, esse ensinamento é preservado e transmitido ao longo da história, garantindo a fidelidade ao Evangelho. Nesse sentido, destacou que a própria Lumen Gentium apresenta essa realidade como constitutiva da Igreja, e não como elemento secundário ou posterior:

“A estrutura hierárquica não é uma construção humana, funcional à organização interna da Igreja como corpo social, mas uma instituição divina destinada a perpetuar a missão dada por Cristo aos Apóstolos até ao fim dos tempos.”

Serviço ao Povo de Deus

O Papa também aprofundou a relação entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial, recordando que ambos participam, de modos distintos, do único sacerdócio de Cristo e se ordenam mutuamente na vida da Igreja. Assim, a hierarquia existe em função do serviço, e não do poder. Dentro dessa missão, os ministros ordenados — bispos, presbíteros e diáconos — recebem a responsabilidade de guiar, santificar e ensinar o povo de Deus, sempre em vista da salvação de todos:

“Os bispos, em primeiro lugar, e através deles os sacerdotes e os diáconos, receberam deveres que os conduzem ao serviço de todos os que pertencem ao Povo de Deus.”

Uma hierarquia que nasce da caridade

Retomando o ensinamento conciliar, o Santo Padre enfatizou que a autoridade na Igreja deve ser compreendida à luz da caridade de Cristo, configurando-se como verdadeira “diaconia”, isto é, serviço. Trata-se de uma missão que brota do amor e se orienta para a edificação da comunidade e a transmissão fiel da fé:

“Com o adjetivo ‘hierárquica’, portanto, o Concílio deseja indicar a origem sagrada do ministério apostólico na ação de Jesus, o Bom Pastor, bem como as suas relações internas.”

Ao concluir a catequese, Leão XIV convidou os fiéis a rezarem “para que o Senhor envie à Sua Igreja ministros ardentes de caridade evangélica, dedicados ao bem de todos os batizados, e missionários corajosos em todas as partes do mundo”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

terça-feira, 24 de março de 2026

DOCUMENTO: A força de Deus é a alegria do seu povo

O apóstolo João com a cabeça apoiada no braço de Jesus, Tilman Riemenschneider, detalhe do altar da Última Ceia, Sankt-Jacob, Rothenburg ob der Tauber (Alemanha) | 30Giorni.

DOCUMENTO

retirado do nº 06 – 2003, Revista 30Dias.

Rimini, Sábado Santo, 19 de abril de 2003

A força de Deus é a alegria do seu povo

Anotações do discurso de encerramento de Luigi Giussani no Tríduo Pascal da Juventude Estudantil.

Por Luigi Giussani

Agradeço -lhe, Padre Giorgio, por me conceder a palavra neste momento tão importante na vida de todos estes nossos amigos, jovens amigos, e pela resposta que os nossos corações, os corações de cada um de nós, se sentem compelidos a buscar, a oferecer num grande reavivamento da fraternidade universal.

Talvez aprendamos também, na nossa amizade, a dedicar tempo e profundidade à nossa relação com a Bíblia, o livro que o Senhor escolheu para ilustrar e iluminar o que a Bíblia anima e esclarece.

No início do livro, em que a Bíblia fala do profeta Abraão, que percebeu a imensidão do drama religioso deste povo consagrado pela grandeza de Deus, perceberemos — à medida que caminhamos página por página, uma página após a outra, caminhando de palavra em palavra, de pensamento em pensamento — tudo o que o Senhor quis dizer à humanidade, àqueles que o buscam, àqueles que escutam a sua voz, ao drama da humanidade.

A questão é muito simples: Deus responde às necessidades humanas demonstrando como a experiência humana é motivada, expandida, fortalecida e enriquecida, quanto mais se segue a palavra de Deus. Permiti-me convidá-los a compartilhar uma frase, um pensamento com o qual Deus faz o homem expressar, faz o homem relatar, tudo o que lhe interessa (a busca humana tem como "interesse" aquilo pelo qual vale a pena viver, caso contrário a existência humana seria sem sentido, e especialmente inútil falar de Deus): "O homem busca a felicidade", diz a Bíblia.

"O homem busca a felicidade", a realização de uma seriedade intensa e feliz. Qual é o método pelo qual Deus "busca" o homem, isto é, cria seres na história, introduzindo-os ao sentido de tudo? A partir do momento em que o Senhor nos toma pelos ombros e nos impulsiona para a frente, a partir desse momento não há mais nada que possa substituir o dom de Deus na vida.

Talvez fosse bom que vocês se dedicassem, e envolvessem seus sacerdotes ou outras pessoas maduras, mais adultas, para esclarecer as palavras e frases ditas e usadas por Deus. Por exemplo, você criará muita propaganda (como um grande clamor) ao tentar inventar respostas para suas necessidades, e descobrirá, em vez disso, que as respostas só podem ser encontradas se você apoiar sua cabeça nos ombros de Cristo.

A força humana está inteiramente concentrada na busca por satisfação, por felicidade. Ora, Deus não apenas existe nesses sentimentos, mas neles reside a Sua resposta, a Sua presença, aquela Presença pela qual se diz: "Assim seja!"

A força do Senhor é a nossa alegria. A fórmula com a qual os antigos profetas hebreus concentravam a atenção de todos os seus seguidores e conhecidos é, assim, restabelecida numa unidade de evidência, com a mesma força e clareza com que Dom Giorgio ainda hoje falava do nosso seguimento a Cristo: seguir a Cristo! Porque seguir a Cristo é possível e, inevitavelmente, necessário.

"A força de Deus é a alegria do seu povo." "A força de Deus é a força do seu povo." Estas são palavras que toda a nossa vida é chamada a compreender, a abraçar e a levar consigo onde quer que estejamos. Ajudemo-nos uns aos outros a levar juntos, ajudemo-nos uns aos outros a deixar que esta força de Deus, que é alegria para a humanidade, opere em conjunto: a força do Senhor é a alegria do seu povo.

Fonte: https://www.30giorni.it/index_l1.htm

Suplemento mensal do L'Osservatore Romano: quando a crise leva a Deus

Ingrid Bergman no filme "Europa '51'", com Giulietta Masina atrás  | Vatican News.

Na edição de julho do suplemento mensal do jornal vaticano "L’Osservatore Romano", intitulado “Donne Chiesa Mondo”, as histórias de mulheres entre cinema, fé e renascimento espiritual.

Tiziana M. Di Blasio*

Se o cinema, por sua natureza arte da visão, necessita, formalmente, de uma linguagem não verbal e, tematicamente, de uma dramaturgia que explora as fenomenologias da crise, tanto mais o cinema de autor as propõe com poéticas originais, entre pesquisa e mistério, na pluralidade dos gêneros: do drama à comédia, do musical à fantasia e na altura de intérpretes como Ingrid Bergman, Audrey Hepburn, Jennifer Jones, Sophia Loren, Anna Karina, Silvana Mangano, Vanessa Redgrave, Julie Andrews, Susan Sarandon e Meryl Streep.

E se o olhar sobre a crise incluiu também a esfera espiritual, isso se deve a teóricos que investigaram a presença/ausência de Deus e a autores que, de forma direta ou indireta, se não provocativa, irreverente quando não blasfema, elaboraram itinerários interiores de correspondência ou discrasia entre fé e heresia, vocação e rebelião, vida ativa e vida contemplativa. Da ascética classicidade de Robert Bresson em Les Anges du péché (1943) à provocação surreal de Luis Buñuel em Viridiana (1961), do conflito político-religioso de Jacques Rivette de la Suzanne Simonin a Religieuse de Diderot (1966) ao panfleto grotesco de Ken Russel em The Devils (1971), da ironia boccaccesca de Decameron (1971) de Pier Paolo Pasolini, retomada pelos irmãos Taviani em Maraviglioso Boccaccio (2015), até as sugestões do olhar feminino de Márta Mészáros, Margarethe von Trotta, Liliana Cavani, Anne Fontaine, Margaret Betts e Maura Delpero.

Nessa casuística variada, um bom ponto de partida para a reflexão pode ser a leitura da crise proposta em Europa '51, de Roberto Rossellini (1952), inspirada em Simone Weil, Herbert Marcuse e em um fato noticioso.

A protagonista, Irene (Ingrid Bergman), uma mulher da alta burguesia, está perturbada, na vacuidade de sua existência, pela morte de seu filho, que se suicidou por carência afetiva. Diante de um vazio insuperável, ela se questiona, em um caminho de ascetismo, sobre o sentido último de sua dor e, ao fazer isso, cai no “pecado mortal” do não conformismo, não se adaptando à insinceridade programática das instituições totais. Nem os familiares, nem o primo marxista, nem o padre, nem o juiz, nem o psiquiatra, expoentes da ordem estabelecida, conseguirão compreender a elaboração da dor de Irene, sua distopia e as consequentes escolhas radicais, suportando a nudez de que fala Weil em seus Cadernos. Internada em uma clínica psiquiátrica, ela será considerada santa por aqueles que amou de forma desinteressada e não convencional.

Com surpreendente atualidade, Rossellini, antecipando as temáticas das periferias e dos últimos, encena o cuidado de Irene com os deserdados que vivem à margem e a dura vida dos operários na fábrica. Com um “documentário sobre o rosto”, o autor narra um doloroso itinerário existencial no final do qual emergem a loucura e a marginalização, mas também a esperança e a força moral em um processo de purificação através do sofrimento. A enunciação rosselliniana, dessa forma, revela que cada gesto de amor é uma experiência do divino e uma busca do Absoluto.

A evocação claustral, induzida pela sequência final da grade, confirma o que Irene havia declarado ao juiz que a pressionava sobre o sentido de suas reais intenções: «... quero compartilhar a alegria de quem é feliz, a dor de todos aqueles que sofrem, a angústia de quem se desespera. Prefiro me perder com os outros do que me salvar sozinha. Somente quem é completamente livre pode se confundir com todos, somente quem não está ligado a nada está ligado a todos os seres humanos”.

Na sequência final em aberto, a protagonista, através do olhar “para a câmera”, interpela diretamente o espectador. Das imagens, purificadas com exceção do rosto, filtra-se, no espaço deixado vazio pelos corpos, a ideia do transcendente.

O recurso à representação do rosto entendido não como objeto parcial, mas como abstração de qualquer coordenada espaço-temporal é retomado pela estilização pessoal de Alain Cavalier em Thérèse (1986), interpretado por Catherine Mouchet. Com sua releitura da figura histórica de Santa Teresa do Menino Jesus, entramos no coração do claustrum, onde a essencialidade do rosto funciona também aqui como chave hermenêutica, um vis-à-vis com Thérèse, em uma narrativa sem hiato entre leveza e profundidade, vida e morte. O resultado desse processo, que apela a um marcado virtuosismo iconográfico, não é um retrato apologético/hagiográfico, mas o de uma adolescente com um objetivo preciso e definitivo: tornar-se santa.

A novidade consiste em um itinerário de ascetismo estilístico análogo ao espiritual da protagonista e, em coerência com essa escolha, o claustrum funciona como espaço/tempo para uma reflexão sobre a vocação, deixando falar mais os vazios do que os cheios, mais a rarefação do que a condensação, mais os silêncios do que os sons.

A dramaturgia do lugar fechado também cativa um autor como Michelangelo Antonioni, aparentemente distante de temas espirituais, mas extremamente sensível ao vazio existencial e à ausência de sentido.

É o próprio diretor que revela seu fascínio depois de ler o diário da freira de clausura Catherine Thomas, intitulado My Beloved. The Story of a Carmelite Nun (Meu Amado. A história de uma freira carmelita). Embora confesse seu desinteresse pelo ascetismo, mas consciente de que a razão não é capaz de explicar a clausura, Antonioni afirma: « Que resposta podem dar essas freiras se escolheram por disciplina não dar resposta? A dificuldade de compreender a vida delas não depende nem do rigor da Regra nem da maneira como a aplicam. Depende de nós, que não buscamos uma pausa para refletir sobre o mistério da experiência delas» e cita Santa Teresa de Ávila: «Sofrer ou morrer, eis quais devem ser os nossos desejos».

Das três primeiras páginas do diário, o diretor extrai, no final dos anos 70, o tema Sofrer ou morrer, que o leva a visitar 14 mosteiros de clausura e a estabelecer relações epistolares com algumas freiras. A uma delas, Antonioni faz uma pergunta indiscreta: “e se eu me apaixonasse por você?”, à qual segue uma resposta fulminante: “seria como acender uma vela em uma sala cheia de luz”. O longa-metragem não será realizado, mas o tema e o diálogo serão retomados em Além das nuvens (1995), destilando-os no episódio intitulado Este corpo de lama, onde uma garota (Irène Jacob) aceita fazer um trecho da estrada, na cidade das cem fontes, Aix-en-Provence, onde a água das fontes e da chuva evoca a regeneração, com um desconhecido (Vincent Pérez) que se informa sobre sua vida, fascinado por sua misteriosa serenidade. A câmera segue esses seguimentos desde a igreja até a porta de casa quando, ao pedido de poder vê-la novamente, a garota responde rapidamente: “amanhã entro no convento”.

A partir da consciência de uma vocação correspondida, com Sangue do meu sangue, de Marco Bellocchio (2015), evolução de um curta-metragem anterior, La monaca (2010), aborda-se, ainda que tangencialmente, o tema oposto das monacaciones forçadas no século XVII, ligado ao instituto do mayorasco, que previa a herança exclusiva do primogênito, violando a liberdade de escolha individual, e ao instituto do fedecommesso. Fenômeno difundido, embora o Concílio de Trento, no Decretum de regularibus et monialibus (1563), declarasse anátema contra quem violasse a livre vontade, mesmo através da coação de natureza psicológica.

Existe uma vasta literatura sobre o drama na história do gênero, inclusive com adaptações cinematográficas que narraram a vida do claustro, para algumas mulheres um lugar de autoafirmação, para outras uma morada forçada, dando origem também a um subgênero particular, o nunsploitation, que insistiu, muitas vezes com complacência mórbida, na sexualidade, na tortura e nas possessões.

De caráter bem diferente e ambientado em épocas diferentes, o filme de Bellocchio narra a história de uma freira “forçada”, Benedetta (Lidiya Liberman), que seduz o confessor Fabrizio (Pier Giorgio Bellocchio), levando-o ao suicídio. O irmão gêmeo Federico, um homem de armas, tenta, sem sucesso, convencê-la a confessar que é uma bruxa e, no entanto, a mulher será emparedada em uma minúscula cela com uma fresta.

Filmado em Bobbio, na província de Piacenza, na prisão construída em uma ala da abadia de San Colombano, como uma história de espaços interconectados textual e metalinguisticamente, o filme recorre a uma série de elementos que representam a mentalidade de uma época impregnada de práticas mágicas e ascéticas-disciplinares.

Ele começa, de fato, com uma porta fechada, elemento que conecta figurativamente, entre ocultações e revelações, épocas diferentes como o “cosmo do entreaberto”, segundo a concepção de Gaston Bachelard, que fecha/abre topografias interiores.

A metáfora da dualidade interno/externo, luz/sombra encontra seu ápice, finalmente, na alvenaria/desalvenaria da cela, na força imaginativa de uma libertação, não apenas material, no voltar à luz. Vemos, de fato, o levantar-se de Benedetta, na nudez de um corpo incorrupto após uma purificação/descarnação angustiante, como uma espécie de anástasis, ressurreição daquele eterno feminino, memória e alma do tempo.

*Historiadora, ex-professora do curso de “Teoria e História do Cinema” da Pontifícia Universidade Gregoriana

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

segunda-feira, 23 de março de 2026

A Ressurreição de Lázaro por parte de Jesus em Santo Agostinho

A Ressurreição de Lázaro (cnbb norte 2)

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO POR PARTE DE JESUS EM SANTO AGOSTINHO

20 de março 2026

por Dom Vital Corbellini
Bispo da Diocese de Marabá

O quinto domingo da Quaresma coloca a liturgia, pelo Evangelho de São João, o relato da ressurreição de Lázaro (cfr. Jo 11,1-45), merecendo um destaque pelo Evangelista, porque foi um grande milagre do Senhor Jesus Cristo manifestando todo o seu poder diante da morte de uma pessoa e de um amigo de Jesus, Lázaro, cujo significado  é: “Deus ajuda” sendo irmão de Marta e de Maria, pessoas próximas e amigas de Jesus. No tempo da Quaresma a Igreja vislumbra a ressurreição de Lázaro como uma prefiguração da ressurreição de Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte. É importante perceber este relato de São João em Santo Agostinho, Bispo nos séculos IV e V em Hipona, no Norte Africano.

A realização celebrativa do milagre do Senhor

Santo Agostinho disse que entre todos os milagres que fez Nosso Senhor Jesus Cristo, é celebrado de uma forma grandiosa, celebrativa, a ressurreição de Lázaro. Na verdade Jesus ressuscitou uma pessoa humana, Aquele que fez o ser humano, pois é Ele o Único do Pai, por meio do qual tudo foi feito (cfr. Jo 1,3), pelo fato de que por meio d´Ele muitas pessoas nascem e também partem deste mundo. Desta forma a criação é dada para todos os seres vivos, ressuscitá-los é também obra divina. Tendo presente que Jesus fez muitas coisas, mas que nem todas foram escritas pelo evangelista João, este escolheu aquelas que são suficientes à salvação dos que creem (cfr.  Jo 20,30)[1].

A ressurreição de um morto

O bispo de Hipona falou que Jesus ressuscitou um morto. Se Ele quisesse, o Salvador ressuscitaria a todos os mortos, porque Ele tem este poder, mas o Senhor reservou esta verdade de fé para o final dos tempos, do mundo. Lázaro estava morto a quatro dias e o Senhor ressuscitou a uma pessoa que já cheirava mal. A palavra de Jesus era realizada no qual virá a hora em que todas as pessoas que se acharem nos sepulcros à voz do Senhor, sairão dos sepulcros (cfr. Jo 5,28)[2].

A ressurreição de Lázaro é um sinal

São João colocou a ressurreição de Lázaro como um grande sinal do Senhor manifestando toda a sua glória de Filho de Deus, enviado do Pai em comunhão com o Espírito Santo. O sinal é o milagre da qual a vida é retomada de novo, pelo poder de Jesus, porque Ele tem o poder sobre a morte na vida das outras pessoas mas também em sua morte. O Pai o ressuscitará. Jesus é a vida verdadeira.

As três ressurreições feitas pelo Senhor

Santo Agostinho afirmou que Jesus ressuscitou três pessoas na sua missão evangelizadora e salvadora neste mundo. Ele ressuscitou a filha do chefe da sinagoga (cfr. Mc 5,41-42); Ele ressuscitou o jovem filho da viúva que era trazido para fora das portas da cidade (cfr. Lc 7,14-15) e Ele ressuscitou Lázaro, sepultado a quatro dias (cfr. Jo 11, 1-54)[3].

Ele caiu doente

O Evangelho afirmou que Lázaro caiu doente tendo como irmãs Marta e Maria (cfr. Jo 11,1) que mandaram dizer a Jesus que o seu irmão estava doente. Jesus estava ausente, para além do Jordão. Elas desejavam que Jesus fosse até lá para libertá-lo da doença. Elas não disseram que onde Ele estivesse, pudesse curá-lo, uma vez que tinha este poder. Elas simplesmente disseram; “Senhor, aquele que tu amas está enfermo” (Jo 11,1)[4]. A resposta de Jesus ressaltou que aquela enfermidade não era para morte, mas para a glória de Deus, na qual Ele seria glorificado como o Filho de Deus (cfr. Jo 11,4). As pessoas iriam acreditar que Jesus era o Filho de Deus. O Filho seria glorificado, tendo como finalidade a glória de Deus[5].

O amor de Jesus para aquela família

Jesus amava Marta, Maria, sua irmã e Lázaro (Jo 11,5). Era a demonstração de sua humanidade e de seu amor para com aquelas pessoas jovens, adultas. Se antes aquele local na Judéia poderia ser apedrejado pelos judeus (cfr. Jo 11,8-9), agora voltaria para manifestar a sua potestade[6], o seu poder como Filho de Deus diante da morte. Jesus disse para os seus discípulos que quem caminha de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo, porque Ele era a luz do mundo (cfr. Jo 9,5). No entanto quem caminha de noite tropeça, porque a luz não está nele (Jo 11, 9-10). É preciso invocar o Dia, o Senhor, para que expulse a noite e faça iluminar com a sua luz os corações das pessoas. Jesus quis dizer que era para os discípulos o seguirem porque assim como a luz ilumina o dia, fazendo a pessoas não tropeçar, assim Ele é a luz das pessoas e naquele caso, a morte do amigo, Ele seria a ressurreição de todas as pessoas[7].

A morte como um sono

Jesus disse que Ele iria despertar Lázaro, o seu amigo, pois ele estava dormindo (cfr. Jo 11,11). No entanto para as irmãs, ele estava morto, mas para o Senhor estava dormindo. O fato era que ele estava morto para os seres humanos, os quais não o podiam ressuscitar Lázaro dos mortos, mas não para o Senhor que o faria logo mais com o seu poder de Deus na terra[8]. Os seus discípulos disseram que se ele estava dormindo, há de salvar-se (cfr. Jo 11,11-12), pois o sono costuma ser indício de saúde dos doentes. Era claro que Jesus estava falando da sua morte, como um sono[9].

Quatro dias da morte

Jesus chegou a casa das irmãs após quatro dias da morte de Lázaro, que ele estava no sepulcro (cfr. Jo 11,15-17). Enquanto Maria estava em casa, Marta ficou sabendo que Jesus chegara e foi-lhe ao seu encontro não pedindo que o ressuscitasse, ainda que Ele o soubesse e faria este grande acontecimento, mas ela tinha consciência de que tudo o que Jesus pediria a Deus, Deus iria lhe conceder (cfr. Jo 11, 19-22). Jesus lhe garantiu que o seu irmão ressuscitaria dos mortos (cfr. Jo 11,24), porque Ele é a ressurreição e a vida (cfr. Jo 11, 25)[10]. É a ressurreição por ser a vida[11]. Aquele que crê no Senhor, ainda que esteja morto, viverá e toda pessoa que vive e crê em Jesus, jamais morrerá (cfr. Jo 11,25-26)[12]

O choro de Jesus

O evangelista São João colocou um dado importante que foi o choro de Jesus. Este fato ocorreu quando Marta chamou a sua irmã Maria que foi ao encontro de Jesus e ela prostrou-se diante dele e ao vê-la chorar, Jesus também chorou a morte de seu amigo Lázaro. Por isso Ele perguntou onde o puseram? (cfr. Jo 11,32-34)[13]. Nós vemos neste episódio segundo o Bispo de Hipona que o Verbo assumiu a alma e a carne, sujeitando a si, em unidade de Pessoa, a natureza do ser humano inteiro. Foram realizadas as palavras do evangelista: “O Verbo se fez carne”(Jo 1,14). Assim a alma e a carne de Jesus Cristo conformam uma única Pessoa com o Verbo de Deus, um único Cristo[14]. Na voz de quem freme, se perturba, no caso naquela de Jesus, aparece a esperança de quem ressuscita[15]. No caso Jesus chorou a morte de seu amigo, Lázaro, tendo presente a sua humanidade para com todos os sofredores[16]. Jesus perguntou: Onde o pusestes? Tal é a voz de Deus no paraíso, após o ser humano ter pecado: Onde está? (cfr. Gn 3,9). As pessoas responderam a Jesus: Senhor, vem e vê (Jo 11,34).

Jesus foi junto ao sepulcro

Jesus mandou tirar a pedra (cfr. Jo 11,39). Para o Bispo de Hipona tratava-se de tirar o peso da Lei e agora se abre o tempo da graça no caso, Jesus, para todas as pessoas que aderem a sua Vontade[17]. As pessoas tiraram a pedra e Jesus levantando os olhos ao alto fez uma prece de louvor ao Pai que estava rendendo graças porque o ouviu, de modo que Jesus falou aquelas coisas em vista do povo para que creiam que Ele o enviou ao mundo (cfr. Jo 11,40-43) [18]. Em seguida Jesus disse em alta voz: “Lázaro, vem para fora, O morto veio para fora tendo as mãos e os pés atados com faixas e rosto coberto por um sudário” (cfr. Jo 43-44)[19]. Jesus manifestou todo o seu poder diante da morte, porque Ele vence a morte e o pecado. Jesus mandou desligá-lo e deixá-lo ir (cfr. Jo 11,44)[20].

O evangelista disse que muitos dos judeus que foram à casa de Maria, e visto que Jesus fizera, creram n`Ele e outros foram aos fariseus e lhes contaram o que Jesus fizera (cfr. Jo 11,45-46)[21]. O grande milagre da ressurreição de Lázaro pelo Senhor que o fez dando um dom para as pessoas, resultando que muitas cressem em Jesus como o Ressuscitador dos mortos, no entanto, outros quiseram decretar a sua morte, na pergunta: O que faremos (Jo 11,48). Eles ficaram agarrados às realidades terrestres e não tanto à realidade do Salvador, porque aquele local seria destruído pelos romanos, por não acolherem o Salvador da Humanidade (cfr. Jo 11,47-8)[22]. Mas Jesus ressuscitou o seu amigo, Lázaro dando-lhe novamente a vida, porque Ele é a ressurreição e a vida. A morte não é o fim de nossa existência, mas ela é uma passagem para a outra vida, a vida divina, para uma vida fundamentada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo.

Notas:

[1] Cfr. Homilia 49, n. 1. A Ressurreição de Lázaro. In: Santo Agostinho. Comentários a São João I. Evangelho – Homilias 1-49. São Paulo: Paulus, 2022, pg. 945.

[2] Cfr. Idem, n. 1, pg. pg. 946.

[3] Cfr. Ibidem, n. 3. pg. 948.

[4] Cfr. Ibidem, n. 5, pg.9 50.

[5] Cfr. Ibidem, n. 6, pg. 951.

[6] Cfr. Ibidem, n. 7. pg. 952.

[7] Cfr. Ibidem, n. 8. pgs. 952-954.

[8] Cfr. Ibidem, n. 9, pgs. 954-955.

[9] Cfr. Ibidem, n.10, pgs 956-957

[10] Cfr. Ibidem, ns. 13-14, pg. 959.

[11] Cfr. Ibidem, n. 14, pg. 960.

[12] Cfr. Ibidem, n. 15, pg. 960.

[13] Cfr. Ibidem, n. 18, pg. 962.

[14] Cfr. Ibidem, n. 18, pg. 963.

[15] Cfr. Ibidem, n. 19, pgs. 963-964.

[16] Cfr. Ibidem, pg. 965.

[17] Cfr. Ibidem, n. 22, pg. 966.

[18] Cfr. Ibidem, n. 24, pg. 967.

[19] Cfr. Ibidem.

[20] Cfr. Ibidem, pg. 968.

[21] Cfr. Ibidem.

[22] Cfr. Ibidem, ns 25-26, pgs. 968-969

Fonte: https://cnbbn2.com.br/

Magistério da Igreja: autêntico intérprete da Escritura

(©REUTERS/Yara Nardi) 

"Há uma distinção, mas não uma separação entre o Magistério e a Tradição, ou seja, a Igreja é como uma Mestra (Magistério) que possui e transmite a Escritura (Bíblia) e a Tradição (Depositum Fidei). O Magistério desempenha ao dar, “todos os dias até ao fim do mundo”, a correta interpretação ativa ou subjetiva/formal do conteúdo dogmático-moral da Tradição, tendo garantido ontem a veracidade do conteúdo passivo ou objetivo/material".

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

Na catequese da Audiência Geral de 28 de janeiro de 2026, o Papa Leão XIV propôs uma rica reflexão intitulada “Um único depósito sagrado. A relação entre a Escritura e a Tradição: “Elas estão tão ligadas e unidas entre si que não podem existir independentemente e, juntas, segundo o modo que lhes é próprio, sob a ação de um único Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das alma”.

Nesta mesma linha, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje o tema ‘Magistério da Igreja: autêntico intérprete da Escritura”: 

"Para o protestantismo, a única fonte da Revelação é a Sagrada Escritura. Há, a partir de Lutero, um princípio Sola Scriptura que é o primeiro dos 5 Solas da Reforma Protestante e significa somente (Sola) a Escritura (Scriptura). Os evangélicos e protestantes não reconhecem a rica Tradição oral e do Magistério, magistério este que garante a interpretação correta das Escrituras.

Para aprofundar essa questão, nos servimos de um artigo publicado pelo Arcebispo do rio de Janeiro, cardeal Dom Orani João Tempesta, datado de 15 de setembro de 2020. Dom Orani diz que o Magistério da Igreja como norma da fé, conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica, à luz da Dei Verbum e Lumen Gentium fala que o encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo, isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma. Todavia, este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado. Os fiéis, lembrados da palavra de Cristo aos Apóstolos: ‘Quem vos escuta escuta-me a Mim’ (Lc 10,16), recebem com docilidade os ensinamentos e as diretrizes que os seus pastores lhes dão, sob diferentes formas” (n. 85-87).

“O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado ao Magistério vivo da Igreja”. Sim, o Senhor Jesus, ao voltar para o Pai, não poderia, por lógica, deixar sua Palavra – que é uma só, mas a nós transmitida por dois canais: a Tradição ou a mensagem não escrita (cf. Jo 21,25; cf. ainda: Jo 20,30; 1Ts2,15; 2Tm 1,12-14; 2,2) e a Escritura – jogada ao vento de interpretações arbitrárias (Guardar o sábado ou o domingo? Batizar crianças ou adultos? Ter episcopado ou não? etc.), por isso fundou a Igreja e a entregou a Pedro e aos seus sucessores. A eles prometeu assistência até o fim dos tempos (cf. Mt 16,16-18; Lc 22,31-32; Jo 21,15-17; 14,26; 16,13-15; cf. Mt 18,18). Essa missão é exercida pelo Magistério da Igreja – de modo especial – ao tratar de Fé e Moral. Dom Orani ainda aponta que cada apóstolo não transmite a “sua” mensagem, em “seu” próprio nome, mas comunica o que viu e ouviu de Nosso Senhor (cf. Lc 24,47-48; At 1,8; 2,32; 3,15; 5,32; 1Cor 15,3).

A Igreja definiu infalivelmente no Concílio de Trento (IV sessão de 6 de abril de 1546; DB, 783) e no Concílio Vaticano I (DS, 1787): 1°) à Assistência de Deus, pois sem a ajuda do Espírito de Verdade a pureza do ensino oral não poderia ser preservada; 2°) ao Magistério, que embora não seja a Tradição, é o órgão pelo qual ela é transmitida; o sentido pleno da Tradição só pode ser obtido sob a condição de manter juntos seus dois aspectos, o passivo (objeto transmitido) e o ativo (sujeito transmissor), dos quais o segundo é tão importante, que uma “tradição” do primeiro século, mas não atestada pelo Magistério da Igreja, não constituiria uma ‘verdadeira’ Tradição divino-apostólica; no máximo teria o valor de documentação histórica.

Há uma distinção, mas não uma separação entre o Magistério e a Tradição, ou seja, a Igreja é como uma Mestra (Magistério) que possui e transmite a Escritura (Bíblia) e a Tradição (Depositum Fidei). O Magistério desempenha ao dar, “todos os dias até ao fim do mundo”, a correta interpretação ativa ou subjetiva/formal do conteúdo dogmático-moral da Tradição, tendo garantido ontem a veracidade do conteúdo passivo ou objetivo/material.

Na publicação do Novo catecismo da Igreja Católica, São João Paulo II escrevia assim: “Guardar o Depósito da Fé é missão que o Senhor confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos. O Concílio Ecumênico Vaticano II, inaugurado há trinta anos pelo meu predecessor João XXIII, de feliz memória, tinha como intenção e como finalidade pôr em evidência a missão apostólica e pastoral da Igreja, e, fazendo resplandecer a verdade do Evangelho, levar todos os homens a procurarem e acolherem o amor de Cristo que excede toda a ciência (cf. Ef 3,19)”.

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

domingo, 22 de março de 2026

Mentira e verdade se encontram na parábola da vida

A Vewrdade saindo do poço (Jean-léon Gérôme)

MENTIRA E VERDADE SE ENCONTRAM NA PARÁBOLA DA VIDA

10 de setembro de 2021

Xaverianos do Brasil Sul=

Até quando a mentira ficará solta, transvertida de verdade?! Nas movimentações que tomaram as ruas do Brasil no 7 de setembro, data tão importante para a nação brasileira, me veio à mente uma parábola, uma história, criada no século 19, mas atualíssima. Trata-se do encontro da verdade com a mentira.

A história é a seguinte: um belo dia a verdade e a mentira se encontraram. A Mentira disse à Verdade: "Hoje o dia está maravilhoso!" A Verdade olhou para os céus e suspirou, pois o dia estava realmente lindo. Elas passearam muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A Mentira disse à verdade: "A água está muito boa, vamos tomar um banho juntas!" A Verdade, mais uma vez, desconfiada, testou a água e descobriu que realmente a água estava muito boa. Elas se despiram e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira saiu da água, vestiu as roupas da Verdade e fugiu. A Verdade, furiosa, saiu do poço e correu para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta. As pessoas, vendo a Verdade nua, desviavam o olhar, com desprezo e raiva. A pobre Verdade, depois de muito tempo procurar, voltou ao poço e desapareceu para sempre, escondendo nele a sua vergonha.

Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque percebeu, em todo caso, que o mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua e crua, prefere a Mentira com as roupas da verdade.

Outro final dessa história diz que a Verdade, quando voltou ao poço, recusou-se a vestir a roupas da Mentira e, sem ter que se envergonhar, saiu nua a caminhar pelas ruas e cidades. Por isso, desde então, para muita gente é mais fácil aceitar a mentira com a roupa da verdade, do que aceitar a verdade nua e crua.

Gostou? Jean-Léon Gérôme, em 1896, eternizou essa parábola com sua pintura: A Verdade saindo do poço. E agora eu lhe pergunto: não está na hora de sairmos desse poço de águas enlameadas pelo genocídio, agressões aos poderes estabelecidos, injustiça, fome e miséria? Sair com roupa ou sem roupa? Sair para apoiar a mentira ou a verdade? A mentira que roubou as nossas roupas anda por aí vestida de verde e amarelo. E o que é pior, manipulando a verdade do evangelho que diz: "Conhecereis a verdade, e ela vos libertará" (Jo 8,32). E como estava nas ruas atropelado a verdade das ruas, os pobres, os mendigos à beira do caminho.

Aonde chegamos? Um Brasil de impávido colosso às margens de sectarismos, fascismos, radicalismos e tantos ismos de intolerância política e religiosa. Até quando a mentira ficará solta, transvertida de verdade, vivendo nos palácios construídos nos planaltos e sobre a miséria, a fome de 20 milhões de brasileiros, nas planícies de um gigante pela própria natureza, que exclui, dizima, seus filhos da primeira hora, os indígenas?! A escolha é sua! Como pede-nos o presidente da CNBB, dom Walmor: "não se deixe convencer por quem agride os Poderes Legislativo e Judiciário. Independentemente de suas convicções político-partidárias, não aceite agressões às instituições que sustentam a democracia".

 Você prefere a mentira com a roupa da verdade ou a verdade nua e crua? Pare, pense e reflita! Talvez tenha sido essa a maior das lições do 7 de setembro desse fim de outono de 2021, o tempo para pensar. O tempo dará a sua resposta.

Jacir de Freitas Faria (Fonte Dom total)

Fonte: https://www.xaverianos.org.br/

Leão XIV: libertar-se do sepulcro do materialismo, pois fomos feitos para Deus

Angelus, 22/03/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

Ao comentar o episódio da ressurreição de Lázaro, proposto pela Liturgia desta V domingo de Quaresma, Leão XIV recorda que no sepulcro do egoísmo, do materialismo, da violência e da superficialidade não há vida, mas apenas desorientação, insatisfação e solidão.

Bianca Fraccalvieri - Vatican News

"Nada de finito pode saciar a nossa sede interior, porque fomos feitos para Deus": palavras de Leão XIV ao rezar com os fiéis reunidos na Praça São Pedro a oração do Angelus neste quinto domingo da Quaresma.

A Liturgia propõe o Evangelho da ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11, 1-45) , que o Pontífice comenta como um sinal que fala da vitória de Cristo sobre a morte e do dom da vida eterna que recebemos com o Batismo. "Hoje, Jesus diz também a nós, tal como a Marta, irmã de Lázaro: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre» (Jo 11, 25-26)."

Assim, explica o Papa, a Liturgia convida os fiéis a reviver, na Semana Santa que se aproxima, os acontecimentos da Paixão do Senhor para compreender o seu sentido mais autêntico e nos abrir ao dom da graça que eles encerram.

Tempo chuvoso no primeiro domingo de primavera em Roma   (@Vatican Media)

Fama e bens materiais não saciam nossa sede de infinito

Na verdade, é em Cristo Ressuscitado que tais acontecimentos encontram o seu cumprimento. A sua graça ilumina este mundo que, afirma o Santo Padre, parece estar em constante busca de mudanças e novidades, mesmo que isso implique sacrificar coisas importantes, como tempo, energias, valores, afetos. "Como se a fama, os bens materiais, os divertimentos e as relações passageiras pudessem preencher o nosso coração ou tornar-nos imortais", diz ainda o Papa, recordando que não é no efêmero que podemos confiar a nossa necessidade de infinito.

“Nada de finito pode saciar a nossa sede interior, porque fomos feitos para Deus e não encontramos paz enquanto não descansarmos Nele (cf. Confissões, I, 1.1).”

Libertar-se dos sepulcros que nos desorientam

A narrativa da ressurreição de Lázaro, portanto, nos convida a estar atentos a essa necessidade profunda e, com a força do Espírito Santo, libertar os nossos corações de hábitos, condicionamentos e formas de pensar que, como grandes pedras, "nos aprisionam no sepulcro do egoísmo, do materialismo, da violência e da superficialidade". Nestes lugares não há vida, afirmou o Santo Padre, mas apenas desorientação, insatisfação e solidão.

Eis então que Jesus ordena também a nós: «Vem cá para fora!» (Jo 11, 43), encorajando-nos a sair desses espaços confinados para caminharmos na luz do amor, como mulheres e homens novos, capazes de esperar e amar segundo o modelo da sua caridade infinita, sem cálculos e sem limites. Leão XIV então conclui:

"Que a Virgem Maria nos ajude a viver assim estes dias santos: com a sua fé, com a sua confiança, com a sua fidelidade, a fim de que também para nós se renove, todos os dias, a experiência luminosa do encontro com o seu Filho ressuscitado."

Maratona de Roma

Ao final do Angelus, o Pontífice saudou os atletas provenientes de todo o mundo que participaram este domingo da "Maratona de Roma": "Este é um sinal de esperança! Possa o esporte traçar sendas de paz, de inclusão social e de espiritualidade".

Atletas passaram diante da Praça São Pedro (Vatican Media)

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

sábado, 21 de março de 2026

Ambrósio e Agostinho: "Ele chorava não porque estivesse em apuros...

Ambrósio batizando Agostinho, têmpera e ouro sobre madeira, Pinacoteca Vaticana, Cidade do Vaticano | 30Giorni.

Ambrósio e Agostinho

retirado do nº 03 – 2004, Revista 30Dias.

"Ele chorava não porque estivesse em apuros, mas porque finalmente estava respirando."

Assim explica o historiador Luigi Crivelli a emoção de Agostinho após ser batizado por Ambrósio na noite do Sábado Santo de 387. Hoje, Milão dedica uma exposição à história desse encontro.

Por Giuseppe Frangi

Milão, no ano de 384, era uma cidade vibrante e cheia de vida. Ali residia o Imperador do Ocidente, Valentiniano II, ainda menino, tendo sua mãe, Justina, como sua representante. Ali também morava o Bispo Ambrósio, governador ou cônsul da Emília, que em 374 havia mediado com sucesso o conflito entre as facções pró e anti-nicenas e que, em virtude dessa intervenção, se tornara bispo para a satisfação de todos: os anti-nicenos confiavam em sua neutralidade, os pró-nicenos na tradição inquestionável de sua família, e o imperador, em sua lealdade como funcionário público. Ambrósio, como escreve Richard Krautheimer, um dos maiores historiadores dos primeiros séculos do cristianismo, "durante os 24 anos seguintes, fez da diocese de Milão a mais importante do Ocidente".

Em 383, um jovem ambicioso, ainda com menos de trinta anos, nascido na África e recém-chegado a Roma, percebeu que Milão era o melhor lugar para lançar sua carreira. Esse jovem era Agostinho. Ao saber que Milão havia solicitado um professor de retórica, Agostinho instigou o prefeito pagão da cidade, Quinto Aurélio Símaco, a fim de garantir o cargo. Isso era especialmente importante, visto que a viagem era paga pelo Estado, e naquele momento de sua vida, Agostinho era particularmente sensível ao dinheiro.

"Símaco ficou satisfeito que um não-cristão ocupasse um cargo institucional na corte", explica o historiador Luigi Crivelli, presidente da Fundação Sant'Ambrogio. Em outubro de 384, Agostinho estava em Milão, acompanhado de sua concubina, cujo nome ele nunca revelou, e de seu filho de 12 anos com ela, Adeodato. "O professor não se furtou ao seu dever institucional de visitar o bispo Ambrósio", explica Crivelli. Milão agora dedica uma exposição solenemente preparada e anunciada ao encontro entre Ambrósio e Agostinho no Museu Diocesano e no Palazzo delle Stelline. " Um encontro fatídico", foi o título curioso e unânime do Corriere della Sera e do La Stampa ao apresentarem este evento.

Um encontro que os historiadores têm analisado minuciosamente até aos mínimos detalhes. E esta exposição visa agora dar-lhe um conhecimento mais amplo e abrangente.
Estes não foram meses de paz para Ambrósio. E não foi precisamente por causa de Símaco, o principal patrocinador de Agostinho. Com o assassinato do Imperador Graciano no ano anterior, Ambrósio perdera um aliado valioso. "Foi ele quem renunciou ao título de pontífice máximo e que, com os seus decretos, favoreceu a fação católica", recorda Crivelli.

"Ambrósio percebeu a gravidade dos perigos que pairavam sobre toda a sua política." Agostinho, dadas as suas relações, devia estar ciente da situação em que Ambrósio se encontrava, e nas ConfissõesEle faz algumas breves, mas significativas referências a isso. Diante de seus olhos, o bispo se envolveu na "luta pelas basílicas". Justina, mãe do imperador Valentiniano II, quando tinha apenas quinze anos, "começou a perseguir seu servo Ambrósio, impelida pela heresia na qual os arianos a arrastaram". 

Em 385, chegou o primeiro pedido dos arianos para uma basílica para os ritos da Páscoa. Ambrósio se opôs e venceu. No ano seguinte, o pedido veio ainda mais peremptório. Foram semanas dramáticas. "A morte estava diante dos meus olhos", escreveu Ambrósio à sua irmã Marcelina. O povo estava com ele e, mesmo à noite, guardava a Basílica Portiana (talvez a atual San Vittore al Corpo), objeto da atenção dos arianos. "Agostinho foi profundamente afetado por esses eventos", explica Crivelli. Nas Confissões, ele diz que admirava a maneira como 'Vosso campeão Ambrósio' enfrentava os acontecimentos; desde a multidão 'pronta para morrer por seu bispo'; desde Madre Mônica 'sempre na primeira fila durante as missas e vigílias'. Agostinho conclui: 'Nós mesmos, embora ainda não inflamados pelo fogo do Vosso Espírito, participamos da confusão e da inquietação de toda a cidade'. E, no fim, escreve Agostinho, 'ao menos Justina se conteve em sua fúria persecutória'.

Letra maiúscula inicial (com figura de Santo Agostinho) de um manuscrito do século XIII contendo o comentário de dois teólogos dominicanos sobre De civitate Dei, Biblioteca Ambrosiana, Milão | 30Giorni.

Em junho daquele ano, 386, os corpos dos mártires Gervásio e Protásio foram encontrados em Porta Vercellina. "Não podemos ser mártires, mas redescobrimos os mártires", escreveu Ambrósio no hino dedicado a eles. Imediatamente, mandou sepultá-los em uma nova basílica, a Basílica dos Mártires, hoje Sant'Ambrogio. Esses eventos também cativaram a atenção de Agostinho, conduzindo-o, passo a passo, ao momento decisivo de sua vida. Em suas Confissões , ele descreve, com palavras comoventes, o transporte dos corpos dos dois mártires para a Basílica e as curas que ocorreram graças a eles, incluindo a de um cego que recuperou a visão.

O verão de 386 foi crucial na vida de Agostinho. Ambrósio havia partido em missão para Trier, onde o General Máximo estava estacionado. Em seu realismo, ele sugeriu que o intelectual inquieto buscasse a orientação de Simpliciano, um sacerdote idoso da Igreja de Milão que também era o diretor espiritual de Ambrósio. Foi Simpliciano quem lhe contou sobre a conversão de Caio Mário Vitorino, também de origem africana, conversão que ele testemunhara em Roma alguns anos antes. "Assim que o teu servo Simpliciano terminou de me contar essas coisas sobre Vitorino, fui tomado por um ardente desejo de imitá-lo." "Uma nova vontade de te servir desinteressadamente e de desfrutar de ti, ó Deus", escreve ele no belo Livro VIII das Confissões.

No final do verão, decidiu deixar o ensino ("descer da cadeira da mentira") e aproveitar a oportunidade de umas férias de outono oferecidas por Verecondo, também professor de retórica em Milão, que lhe colocou à disposição a sua casa em Cassiciaco (atual Casciago, acima de Varese, ou Cassago Brianza). Agostinho foi com amigos, sua mãe Mônica e seu filho Adeodato. Mas antes de partir, escreveu a Ambrósio para informá-lo de seu desejo de ser batizado. E ele pergunta ao bispo: "Qual livro devo ler para estar melhor preparado e disposto a receber tão grande graça?". Ambrósio recomenda o livro de Isaías. "Catecumeno na tranquilidade do campo", como se autodenomina, Agostinho passa seus dias em conversas que um estenógrafo, convocado especialmente para esse fim, transcreve fielmente. Disso nascem livros, incluindo os Contra academicos , o De beata vita e os Soliloquias . "Agora eu amo só a Ti, só a Ti procuro, só a Ti sigo", escreve ele no primeiro livro dos Soliloquias.

Em janeiro, é hora de retornar a Milão. De fato, é costume na Igreja milanesa, no dia da Epifania (a verdadeira Segunda-feira de Páscoa), anunciar a data da Páscoa e divulgar os nomes daqueles que receberão o batismo naquela noite. Agostinho se inscreve entre os postulantes . Então, na noite do Sábado Santo, entre Nos dias 24 e 25 de abril de 387, na pia batismal octogonal adjacente à abside da Basílica de Santa Tecla (o que restou da pia batismal foi descoberto durante as escavações para o metrô de Milão), Agostinho foi batizado por Ambrósio: "Fomos batizados e toda a ansiedade de nossas vidas passadas desapareceu". A tradição conta que quem lhe impôs a infula branca, agindo como seu padrinho moderno, foi o paciente Simpliciano. Os dois painéis do século XV em exibição reconstroem a cena com precisão: vemos Agostinho na pia batismal, Adeodato e Alípio prontos para serem batizados logo em seguida, e sua mãe, Mônica, que o acompanhou em silêncio. Não há aqui a ênfase emocional que Cerano imprimiria em sua tela do século XVII, que domina a abside da Basílica de São Marcos, também em Milão (uma visita imperdível em qualquer roteiro pela Milão agostiniana).

O sintoma simples e concreto desse momento decisivo são as lágrimas. Agostinho, em uma bela passagem das Confissões , relatou sua leitura de Platão e as lições que aprendeu com ele. Para ele, a leitura dos livros de Platão representou uma conversão da mente, no reconhecimento de que a felicidade humana consiste na união com o único Criador. "E eu não chorei", conclui Agostinho. "E, no entanto, não me desesperei." Em vez disso, explica Crivelli, "após aquele Sábado Santo, começaram dias de infinita doçura. A participação na liturgia o comoveu até as lágrimas. Ele chorou não porque estivesse com dor, mas porque finalmente estava respirando."

A memória devota e comovente de Ambrósio acompanharia Agostinho por toda a sua vida. Mesmo em sua última obra contra a heresia pelagiana, a inacabada Contra Juliano , ele escreveu: "Meu mestre é Ambrósio, cujos livros não apenas li, mas também ouvi suas palavras ao vivo, e de quem recebi a purificação que me regenerou.

Fonte: https://www.30giorni.it/articoli_id_3282_l1.htm

sexta-feira, 20 de março de 2026

Você acredita em vida após o nascimento?

Dois bebês conversando - Victor (Facebook)

VOCÊ ACREDITA EM VIDA APÓS O NASCIMENTO?

20/03/2026

Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

No próximo domingo, as comunidades cristãs meditarão sobre o capítulo 11 do evangelho segundo João. Ele nos apresenta o drama da morte de Lázaro, amigo querido de Jesus e irmão das amigas Marta e Maria. Este texto não fala propriamente sobre a nossa ressurreição, mas sobre o dinamismo da fé em Jesus e a amizade dele conosco.  

Entretanto, a cena nos é proposta enquanto caminhamos para a Páscoa, e a Páscoa tem a ver com a ressurreição de Jesus. A fé na ressurreição não significa “passar panos quentes” na tragédia da morte, mas afirmar com vigor e proclamar com eloquência a força da Vida. À medida em que se faz dom, a Vida é como a semente que cai na terra e germina.  

Sei que a ressurreição é vista como algo insólito por uma cultura que canoniza o presente, o sensível e o rentável e nega ou considera desprezível tudo o que não cabe nestes estreitos limites. Talvez se possa dizer que, na pós-modernidade liberal, a religião e o monoteísmo não desapareceram, mas foram substituídos pelo “moneyteísmo”. 

A propósito da ressurreição dos que morrem, recordo uma conhecida parábola. No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês gêmeos: Fidélis e Nilo. Nilo perguntou se Fidélis acreditava em “vida após o nascimento”, ao que ele respondeu: “Certamente! Algo tem que haver após o nascimento. Talvez a vida aqui nesse lugar apertado e escuro seja apenas uma preparação para o que seremos mais tarde…”  

Em tom irônico, Nilo perguntou se o irmão saberia dizer como seria a outra vida, e Fidélis respondeu: “Eu não sei exatamente como será essa outra vida, mas acho que nela haverá mais luz e espaço do que aqui. Nessa nova fase da vida talvez caminhemos com nossos próprios pés, nos alimentemos pela boca e possamos conhecer muitas outras pessoas…”  

Nilo gritou que isso tudo é absurdo, que caminhar é coisa impossível, que o cordão umbilical é o único modo de se alimentar e que ninguém voltou depois do parto para dizer como é essa suposta vida. E completou: “O parto encerra a vida, e ponto final. A vida é apenas uma angústia prolongada numa escuridão sem sentido e sem fim”. 

Mas Fidélis prosseguiu: “Não sei bem como será a vida depois do nascimento. Mas eu acho que veremos o rosto da nossa Mamãe, e ela cuidará de nós. Sei que você não acredita em Mamãe, mas ela nos envolve e nos sustenta. É nela e através dela que vivemos. No silêncio já podemos ouvi-la cantando e senti-la afagando nosso pequeno mundo…” 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Pasolini: o Evangelho não se anuncia para vencer, mas para encontrar

Pasolini pregou a terceira meditação da quaresma.  (@Vatican Media)

Na Sala Paulo VI, o pregador da Casa Pontifícia reflete sobre São Francisco e lembra que anunciar Cristo com humildade, e não com superioridade, é a verdadeira autoridade na evangelização.

Benedetta Capelli- Vatican News

Agir com humildade, aceitando depender da sensibilidade dos outros, preparar o terreno para o encontro com Jesus, não oferecer respostas prontas, mas suscitar perguntas, deixar espaço para o diálogo, prontos para acolher o bem do outro num “dinamismo de amor”. Trata-se de um caminho articulado e rico de inspirações, centrado na evangelização a partir da experiência espiritual de São Francisco. É o que o pregador da Casa Pontifícia, padre Roberto Pasolini, propõe em sua terceira meditação sobre o tema: “A missão. Anunciar o Evangelho a toda criatura”, nesta manhã (20/03), na Sala Paulo VI, na presença do Papa Leão XIV.

O anúncio do Evangelho, enfatiza o capuchinho, não deve ser feito “a partir de uma posição de superioridade ou de controle”, pois isso correria o risco de traí-lo.

A nossa autoridade não nasce do nosso cargo, mas de uma vida que aceita entrar nesse dinamismo de amor. Foi o que Francisco intuiu ao chamar seus frades de “menores”: atribuindo-lhes não um título, mas um modo concreto de estar no mundo. É justamente essa pequenez, essa humildade vivida, que torna fecundo o anúncio do Evangelho. 

O Evangelho toma forma na vida

A missão, cumprimento da conversão e da fraternidade, nasce “do desejo de compartilhar com os outros a experiência e o anúncio do Evangelho”, mas tudo provém da Palavra. “Não se pode falar verdadeiramente, afirma padre Pasolini, daquilo que ainda não criou raízes na própria vida”.

Não se pode permanecer “abrigado”, mas “é preciso paciência: guardar aquilo que vimos e ouvimos, deixá-lo amadurecer na oração, até que, sublinha, se torne vida antes mesmo de se tornar palavra”. Atenção à tentação de “usar as coisas de Deus para buscar aprovação ou reconhecimento”: é preciso proteger o que é precioso, deixá-lo amadurecer e depois transformá-lo em testemunho.

“Cristo não é uma informação a ser transmitida, mas um mistério que habita a humanidade e pede para ser reconhecido, para que possa emergir na vida. O Evangelho não se comunica como uma simples notícia; oferece-se como uma vida que lentamente toma forma.”

Como um renascimento

Padre Pasolini recorre a um exemplo eficaz para explicar como a presença de Deus no coração humano transforma a vida e a relação com os outros: “É a experiência de uma mãe: primeiro ela traz o filho dentro de si, dá-lhe tempo para crescer, e só depois o dá à luz. Assim também é a fé. Primeiro Cristo ocupa espaço dentro de nós, em silêncio, na oração, nas escolhas cotidianas. E só depois pode aparecer exteriormente, nos gestos e na forma como nos relacionamos com os outros”.

A humanidade do outro

Partir sem seguranças, preparando um encontro que o próprio Jesus deseja realizar. “Não somos nós o centro do anúncio, explica o capuchinho, mas o rosto de Deus que podemos, com simplicidade, tornar transparente e acessível”. É um movimento claro: deixar-se acolher e depois anunciar, reconhecendo o valor do outro. “Significa levar a sério a sua humanidade, a sua capacidade para o bem, a sua disponibilidade”. 

A pobreza real

Para isso é necessária “uma pobreza real”, ressalta o pregador: “apresentar-se sem ter tudo e sem controlar tudo, aceitar depender também da bondade e da sensibilidade dos outros, e perceber que o Reino de Deus já está presente, de maneira oculta, também na vida de quem ainda não o conhece”.

Evangelizar, nessa perspectiva, significa dizer aos outros, mesmo sem dizer nada, que é bom que existam, que a sua vida tem valor. Não para confirmá-los simplesmente no que já são, mas para acompanhá-los a reconhecer, pouco a pouco, a verdade e a beleza que carregam dentro de si, sem pressa de conduzi-los às nossas ideias.

Pasolini recorda as palavras do Papa Francisco sobre a evangelização: “a Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”, isto é, quando “a nossa presença não sufoca a liberdade do outro, mas a desperta”. 

Palavras abstratas não convencem ninguém

Reconhecer no outro a presença de Deus e aproximar-se com respeito: estas são as condições essenciais para o diálogo. “Não se trata apenas de saber falar, mas antes de tudo de saber escutar. E, quando chegar o momento, saber comunicar as palavras de esperança que vêm de Deus”. Não dar respostas imediatas, mas saber esperar pelas perguntas, porque é Deus quem “completa o nosso pobre testemunho”.

Padre Pasolini recorda o episódio dos bandidos que viviam perto dos frades acima do Borgo de San Sepulcro; uma convivência difícil que levou Francisco a uma verdadeira iluminação: oferecer-lhes pão e vinho e, depois, anunciar Deus. Só assim os bandidos podem mudar de vida, porque experimentam “acolhimento, respeito e confiança”. O que realmente prepara o encontro é o caminho a ser trilhado juntos, que leva as pessoas a se questionarem: “essas perguntas, acrescenta o pregador, já são um lugar onde Deus está presente e em ação”.

“Quando as palavras nascem de uma experiência real, elas chegam aos outros. Quando permanecem abstratas e impessoais, não convencem ninguém, nem mesmo nós que as pronunciamos. Anunciar o Evangelho significa aproximar-se com respeito da vida dos outros e reconhecer que, na complexidade de suas histórias, já existe uma busca de sentido, de bem e de verdade.”

Preservar a diferença

Um episódio central na vida de São Francisco é o encontro com o sultão do Egito, Al-Malik al-Kamil, durante a Quinta Cruzada. “À primeira vista, explica o capuchinho, pouco parece acontecer: o sultão não se converte e Francisco não encontra o martírio que procurava”. Mas aquele encontro torna-se terreno de diálogo e crescimento. O frade de Assis apresenta-se “simples, pobre, sem defesas”. “Não procura impor a própria ideia, mas coloca-se diante do outro tal como é”. O sultão reconhece nele “a pobreza e a humildade de Cristo”, não se sente atacado nem questionado, e por isso se abre. O milagre é que dois homens, em meio à guerra, descobrem a humanidade um do outro e se deixam em paz.

O Evangelho não se anuncia para vencer, mas para encontrar. O outro não é um alvo a ser atingido, mas um limiar diante do qual se para, esperando ser acolhido. Evangelizar não significa reduzir a distância a qualquer custo, mas atravessá-la sem anulá-la, preservando a diferença como o espaço onde Deus continua a agir no coração de cada um. 

Uma vida a ser encontrada

Encontrar o outro significa não apenas dar, mas também receber. Nessa atitude de “radical abertura ao outro”, Francisco recomenda aos seus frades que sejam “submissos” diante de pessoas de diferentes crenças. Submissão, esclarece padre Pasolini, não significa perder a própria identidade, nem resignar-se por fraqueza diante do outro.

Trata-se de uma escolha livre de respeito e diálogo. Significa reconhecer que o outro não é um terreno a ser conquistado, mas uma vida a ser encontrada, respeitada e acolhida. Quem aceita posicionar-se assim permite que o outro se abra, emerja, mostre-se como é. Esse modo de se colocar já é, por si só, um ato profundamente evangélico. 

O Mistério de Deus

“Deus não se impôs ao homem, afirma o capuchinho, mas lhe deu espaço. Não guardou zelosamente a própria grandeza: entregou-a, para que o outro pudesse acolhê-la e viver. Quando há acolhimento, o bem emerge, aquele bem, conclui o pregador da Casa Pontifícia, no qual, de modo escondido, já está presente o mistério de Cristo”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF