O bispo Erik Varden faz sua sexta reflexão nos Exercícios
Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e
os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "Mil cairão".
Publicamos um resumo de sua reflexão.
As quedas podem nos tornar humildes quando estamos inchados
de orgulho. Podem revelar o poder salvífico de Deus. Podem tornar-se marcos de
um caminho pessoal de salvação, a serem lembrados com gratidão.
Entretanto, não podemos ser ingênuos. Nem todas as quedas
terminam em júbilo. Há quedas que cheiram a inferno e arrastam o culpado por um
rastro de destruição e ruína. Esse rastro é frequentemente amplo e longo, e
acaba por atingir muitos inocentes. Precisaremos de coragem para nos aproximar,
com Bernardo, do versículo do Salmo 90 que começa: “Caiam mil ao teu lado, e
dez mil à tua direita”.
Nada prejudicou de modo mais trágico a Igreja, nada
comprometeu mais o nosso testemunho do que a corrupção que cresceu dentro da
própria casa. A crise mais terrível da Igreja não foi provocada pela oposição
do mundo, mas pela corrupção eclesiástica. As feridas infligidas exigirão tempo
para cicatrizar. Pedem justiça e lágrimas.
Diante da corrupção, sobretudo quando se trata de abusos,
somos tentados a buscar uma raiz doente. Esperamos encontrar sinais de alerta
precoces que foram ignorados: algum erro de discernimento, um padrão inicial de
desvio. Às vezes esses indícios existem, e temos razão em nos censurar por não
tê-los reconhecido a tempo. Mas nem sempre os encontramos.
Podemos reconhecer o bem grande e jubiloso que
frequentemente se manifestava nos primórdios de comunidades hoje associadas ao
escândalo. Não podemos presumir que tenha havido desde o início uma hipocrisia
estrutural, e que os fundadores tenham se apresentado cinicamente como
sepulcros caiados. Às vezes encontramos sinais de verdadeira inspiração, até
mesmo vestígios de santidade. Como explicar a coexistência de desenvolvimentos
bons e de desenvolvimentos deformados?
Uma mentalidade secular, em geral, se rende: diante de uma
calamidade, designa monstros e vítimas.
Felizmente, a Igreja possui — quando se lembra de usá-los —
instrumentos mais refinados e mais eficazes.
Onde os homens se empenham em esforços nobres, recorda-nos
Bernardo, os ataques do inimigo serão ferozes. Ele observa: “os membros
espirituais da própria Igreja são atacados com muito mais aspereza do que os
carnais”. Pensa que é precisamente isso que o Salmo Qui habitat quer
dizer com sua linguagem de “esquerda” e “direita”: a esquerda representa nossa
natureza carnal, a direita nossa natureza espiritual. As vítimas são mais
numerosas à direita porque é ali que, no campo de batalha espiritual, são
empregadas as armas mais letais.
Mesmo levando a sério o reino demoníaco, Bernardo não
atribui todas as doenças espirituais a seres malignos com chifres e forquilhas.
Ele considera homens e mulheres responsáveis pelo uso que fazem de sua
liberdade soberana. Seu ponto é que a natureza humana é una. Se começamos a
descer às profundezas de nossa natureza espiritual, outras profundezas também
se desvelam. Teremos de enfrentar a fome existencial, a vulnerabilidade, o
desejo de conforto: experiências que podem assumir a forma de um assalto.
O progresso na vida espiritual exige uma configuração do
nosso eu físico e afetivo em sintonia com a maturação contemplativa; caso
contrário, há o risco de que a exposição espiritual busque válvulas de escape
físicas ou afetivas, e que tais escapes sejam racionalizados como se fossem, de
algum modo, eles próprios “espirituais”, de uma ordem superior aos delitos dos
mortais comuns.
A integridade de um mestre espiritual se manifestará em sua
conversa e em seu ensinamento, mas não apenas nisso; será evidenciada também em
seus hábitos online, em seu comportamento à mesa e no bar, em sua liberdade em
relação à adulação dos outros.
A vida espiritual não é um acréscimo ao resto da existência.
Ela é sua alma. Devemos guardar-nos de todo dualismo, lembrando sempre que o
Verbo se fez carne para que nossa carne fosse impregnada do Logos. É necessário
vigiar tanto a esquerda quanto a direita e prestar atenção — insiste Bernardo
nesse ponto — para não confundir uma com a outra. Devemos aprender a estar
igualmente à vontade em nossa natureza carnal e espiritual, para que Cristo,
nosso Mestre, possa reinar pacificamente em ambas.
* Tradução não oficial da síntese publicada neste
endereço: coramfratribus.com/life-illumined/the-fall-of-thousands/

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