ENTRE O PREÇO E O VALOR: MERGULHAR ALÉM DA SUPERFÍCIE
16/04/2026
Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
Não faz muito tempo, um amigo meu que ama
filosofar, enquanto contemplava o mar, enviou-me uma reflexão que me tocou
profundamente. Há quem olhe o mar apenas como convite ao mergulho ou ao
descanso; o filósofo, porém, contempla e interroga. Ele vê mais do que ondas,
percebe mistério, profundidade, sentido. E foi justamente assim que nasceu sua
meditação sobre o que tem preço e o que tem valor.
Permito-me retomá-la quase literalmente: metaforicamente,
o preço é como a superfície do mar, visível, mensurável, exposta às variações
do tempo e do mercado. O valor, porém, habita as profundezas do oceano,
silencioso, invisível aos olhos apressados, mas ali repousa a verdadeira
riqueza. Quem vive apenas na superfície aprende a calcular; quem tem coragem de
mergulhar aprende a compreender.
E, como ele mesmo intuiu com propriedade, são justamente as
pequenas coisas — um bilhete escrito à mão, uma palavra dita no momento certo,
um abraço que se prolonga, um silêncio que respeita — que revelam essa
profundidade. Essas quase nunca têm preço, porque não pertencem à
lógica da troca, mas à gratuidade do encontro. São gestos simples, por vezes
imperceptíveis no ritmo acelerado do cotidiano; contudo, quando partilhados com
pessoas que fazem diferença em nossa vida, tornam-se verdadeiros tesouros, não
por serem raros, mas por serem autênticos.
O valor nasce da partilha. Um sorriso isolado é apenas um
gesto; partilhado, torna-se encontro. Um tempo reservado na agenda é um simples
intervalo; oferecido a alguém, transforma-se em cuidado. A pequena presença
converte-se em grande significado quando há vínculo. É na relação que o simples
se transfigura e adquire densidade de eternidade.
Há coisas que podemos comprar; há outras que só podemos
cultivar. A confiança não se adquire, constrói-se. A amizade não se negocia,
fortalece-se. O amor não se impõe, oferece-se. Essas realidades não têm preço
porque não são mercadorias, mas experiências que nos moldam por dentro. No fim,
compreendemos: o que tem preço ocupa espaço; o que tem valor ocupa lugar no
coração. O preço pode ser substituído; o valor jamais. E são
justamente essas pequenas coisas, aparentemente modestas e quase invisíveis,
que, quando partilhadas com pessoas que iluminam a nossa caminhada, revelam a
verdadeira grandeza da vida.
Essa distinção, tão simples e tão verdadeira, encontra eco
na reflexão de Georg Simmel em A Filosofia do Dinheiro. Para ele, o
dinheiro tem a capacidade de traduzir tudo em uma linguagem comum, tornando
comparáveis realidades que, em si mesmas, são incomensuráveis. Assim, aquilo
que antes pertencia ao campo da experiência — como o amor, a honra ou a amizade
— pode ser reduzido a uma medida quantitativa. Mas essa redução tem
um preço, ela simplifica o que, por natureza, é profundo.
Simmel observa que o valor nasce da distância: valorizamos
aquilo que não está imediatamente disponível, aquilo que exige esforço, tempo e
entrega. Curiosamente, é exatamente isso que o meu amigo intuiu ao falar das
pequenas coisas. Um bilhete escrito à mão, um sorriso, um abraço, um silêncio
respeitoso, nada disso tem preço. E, justamente por isso, tem valor.
Não são raros por serem escassos, mas por serem autênticos.
No entanto, há uma ambiguidade que não podemos ignorar. O
dinheiro, diz Simmel, amplia a liberdade humana: liberta o indivíduo de
obrigações concretas e permite maior autonomia na condução da própria vida.
Mas, ao mesmo tempo, torna as relações mais impessoais, dissolvendo
vínculos, enfraquecendo a densidade do encontro humano. O que se
ganha em liberdade corre-se o risco de perder em profundidade.
A metáfora entre preço e valor revela rara beleza e
profundidade. Nela há densidade
filosófica e sensibilidade poética. São palavras que não
apenas provocam o pensamento, mas tocam a alma e nos convidam a ir além das
aparências. Vivemos, muitas vezes, presos ao que se calcula, esquecendo-nos de
cultivar o que realmente importa. São os vínculos, a presença e a partilha
sincera que conferem sentido à vida, transformando gestos simples em
eternidade guardada no coração. O simples se transfigura quando há vínculo, é
na relação que a vida encontra seu verdadeiro significado. Talvez o grande
desafio do nosso tempo seja este: não permanecer na superfície, mas
aprender a mergulhar e ser profundo.

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