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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

A sua paciência nos espera (2/3)

Rembrandt, Cristo e a adúltera, Munique, Sala das 
Estampas | 30Giorni

Arquivo 30Dias – 03/2003

Luciani e a confissão

A sua paciência nos espera

“O Senhor é um pai que espera no portão. Que nos vê quando ainda estamos longe, e se enternece, e, correndo, vem se atirar ao nosso pescoço e nos beijar com ternura... Nosso pecado, então, transforma-se quase numa joia que podemos lhe dar de presente para prover-lhe a consolação de perdoar... Agimos como senhores, quando damos joias de presente. E não é derrota, mas uma vitória cheia de alegria deixar Deus vencer!”

de Stefania Falasca

“Que seria de mim, pobre coitado,
se não houvesse a confissão”
(santo Cura d’Ars)
Entre os confessores de Albino Luciani, são lembrados em particular alguns monges da Cartuxa de Vedana, mosteiro que gostava de frequentar desde os tempos de Beluno, frequência que não deixou de lado durante todo o período em que foi bispo de Vitório Vêneto. E se nos trinta e três dias de pontificado manteve como seu confessor o jesuíta Paolo Dezza, que fora também confessor de Paulo VI, quando estava em Veneza ia com frequência ajoelhar-se no confessionário do padre Leandro Tiveron, jesuíta também. Modesto e reservado, padre Tiveron pronunciou poucas palavras a respeito de seu ilustre penitente, depois de sua morte: “Luciani foi um exemplo de coragem e confiança indestrutível em Deus, de humildade unida a uma grande fortaleza de espírito”. São palavras que remetem uma vez mais à história humana boa, simples e misteriosa que Luciani encontrara quando criança na fé de sua mãe, de padre Filippo Carli, seu pároco em Canale, amigo e coetâneo de padre Cappello. Assim, lembrou tantas vezes as orações que aprendeu com a mãe e sua infância em Canale, os episódios daquela piedade humaníssima, de devoção, de amor por Jesus que vira e vivera quando criança. A verdade é que devia muito a seu pároco. Devia a ele ter-se tornado padre. Dele aprendera que, para um padre, não há coisa maior e mais frutuosa que batizar, dar a eucaristia, absolver os pecados. In persona Christiý E dele aprendera também toda a sinceridade e a humildade na confissão. “Vejam”, disse Luciani uma vez num encontro durante a Quaresma, “que o Senhor nos deu a confissão como instrumento da Sua misericórdia, e portanto de paz para nós. Não é preciso angustiar-se, ter medos demais. E não é preciso remoer os pecados cometidos. Vocês os confessaram? Pronto, não pensem mais neles. É claro que a confissão deve ser simples, límpida. Alguns, quando vão se confessar, fazem um exame de consciência um pouco complicado, pois pensam: tenho de me sair bem. ‘Esse não é o lugar para se sair bem!’, dizia sempre meu pároco. Então, não é simples: é melhor falar claramente, com poucas palavras, o que se tem a dizer. O que houve, com brevidade, com humildade, sem rodeios. [...] Mais que entrar em exames de consciência muito complicados, é importante pedir ao Senhor que nos faça sentir dor pelos pecados”. A paciência para explicar com clareza as fórmulas do catecismo, com exemplos eficazes que todos pudessem compreender, sempre foi uma prerrogativa de Luciani. “Uma vez, durante uma aula de catecismo em Canale”, lembra a irmã, Antônia, “ouvi Albino explicar a importância da confissão com exemplos contados pelo Cura d’Ars, que repetia sempre: ‘Que seria de mim, pobre coitado, se não houvesse a confissão? Que seria de nós?’. E recomendava que as pessoas se confessassem com frequência. ‘As mães’, dizia Albino, ‘por acaso não trocam sempre suas crianças? A alma também é assim: nós sempre temos faltas e temos sempre de nos lavar, não uma vez ou duas por ano, mas devemos nos confessar com freqüência, se for possível’”. Indicava explicitamente a seus sacerdotes: “Sejamos fiéis ao que diz o código: Frequentará. Vários sínodos dizem: toda semana. Procurem ser fiéis. Um pouco de esforço, mas depois a pessoa fica melhor, fica mais contente, retoma as forças. O arrependimento contínuo, a humilhação contínua também é útil e salutar”.
Os anos do patriarcado de Veneza foram os mais difíceis para Albino Luciani. E foi lá, em Veneza, que teve de se dar conta com amargura do quanto aquela herança cristã tão cara estava cada vez mais longe do horizonte da vida. “Ouve-se cada vez com mais freqüência: ‘O pecado não existe’. Essa maneira de pensar está realmente na última moda, e assusta”, escrevia numa carta aos párocos, continuando: “Há sacerdotes que não acreditam mais na confissão. [...] Pecados sempre existiram, sempre choveram - não há muito o que dizer -, até mesmo na Idade Média cristã. Mas as pessoas sabiam que pecavam, rompiam a lei até mesmo com pecados graves, mas continuavam a respeitar a lei rompida e nem sonhavam em negar o pecado. Hoje, no entanto, dizem que não existem leis muito menos pecados. [...] É isso que assusta”. Em 1974, por ocasião dos exercícios espirituais para o clero, disse: “Não tenho vontade nenhuma de ser heresiólogo; mas às vezes tenho uma forte tentação de apontar sinais de quietismo e semiquietismo, de pelagianismo e semipelagianismo em escritos e discursos que ou descrevem o trabalho pastoral como se tudo dependesse dos homens ou falam de nós, pobres homens, como se não tivéssemos mais de nos preocupar com o pecado...”. E respondeu decidido aos sacerdotes que lamentavam uma queda no número de confissões: “O pecado mortal saqueia nossas almas. Rouba da alma a graça. Vocês estudaram o tratado De gratia e conhecem os efeitos da graça na alma. [...] A confissão é o banco a partir do qual se distribui o sangue de Cristo, é uma cruz vermelha em que se consertam os ossos quebrados pelo pecado. Uma coisa portentosa. [...] Mas repito, como é que as pessoas podem se confessar se vocês não lhes explicarem claramente o exame de consciência, a dor, o propósito e as outras coisas? E repito, sobretudo: quem é que vai se confessar se vocês não disserem o que é a graça de Deus e o quanto é preciosa?”.

Fonte: http://www.30giorni.it/

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF