LEIGAS E LEIGOS CATÓLICOS: UMA MAIORIA SEM EXPRESSÃO?
29/08/2025
Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)
As comunidades católicas dedicam a quarta semana do mês de
agosto à reflexão sobre a vocação e a missão dos leigos e leigas na Igreja e no
mundo. Os vários séculos do controle da Igreja concentradas pelas mãos do clero
(e dos religiosos) produziu um laicato obediente, silencioso, passivo e
eclesialmente inexpressivo. E acabamos acostumados com isso: o clero gera a
Igreja e a governa, ensina e fala em nome dela, e, finalmente, decide por
ela.
Mas seria este o único modo possível de organização e
funcionamento da Igreja? Como não lembrar aqui a inovação surpreendente e
auspiciosa operada pelos apóstolos no início do cristianismo? Todos os membros
da Igreja, reunidos no Espírito, tomavam juntos as decisões mais importantes. E
a consciência de que não havia diferença entre judeus e pagãos, homens e
mulheres, senhores ou escravos, fazia da fraternidade a ‘diferença’
cristã.
Citando o Papa Francisco, o recente Sínodo dos Bispos
afirmou que a sinodalidade é o quadro interpretativo mais adequado para
compreender o ministério hierárquico (cf. § 33). Creio que a natureza
sinodal da Igreja, que coloca nesta perspectiva o mandato que Cristo confia a
todos os fiéis, é também a perspectiva mais adequada e promissora para
compreender a identidade e a missão dos leigos e leigas na Igreja e no
mundo.
O ponto de partida dessa compreensão é a dignidade do Povo
de Deus, do qual todos os fiéis são membros. “Não há nada mais elevado do que
esta dignidade, igualmente dada a cada pessoa”. Não há nada maior que a alegria
de ser povo. Pelo batismo, somos revestidos de Cristo e enxertados nele. Na
identidade e na missão de cristãos está contida a graça que está na base da
nossa vida e nos faz caminhar juntos como irmãos e irmãs” (cf. § 21).
Na perspectiva do Sínodo, “todos os Batizados recebem dons
para partilhar, cada um segundo a sua vocação e a sua condição de vida”. As
diversas vocações eclesiais são “expressões múltiplas e articuladas do único
chamamento batismal à santidade e à missão”. A variedade dos carismas suscitada
pelo Espírito Santo tem como objetivo a unidade da Igreja e a missão nos
diversos tempos, lugares e culturas (cf. § 57).
Por isso, os leigos e leigas pedem à hierarquia que não os
deixe sozinhos, que sua atuação no mundo cultural, social e político seja
reconhecida pelo que é: “ação da Igreja com base no Evangelho, e não uma opção
privada”, e que sejam efetivamente apoiados e reconhecidos. Isso pede que as
comunidades e a hierarquia se coloquem ao serviço da missão que eles realizam
na sociedade, na vida familiar e profissional, e não o inverso (cf. §
59).
O reconhecimento e a participação das mulheres na Igreja é
um desafio especial. O Sínodo afirma que “não há razões que impeçam as mulheres
de assumir funções de liderança na Igreja”, pois “não se pode impedir o que vem
do Espírito Santo”. Por isso, a questão do acesso das mulheres ao ministério
diaconal não está fechada. É preciso continuar o discernimento a este respeito
(cf. § 60). O Sínodo “deixa a bola picando” na área das dioceses!
É preciso remover os obstáculos que dificultam a plena
participação dos leigos na vida e missão da Igreja, assegurando: participação
ampla em todas as fases dos processos de decisão; mais acesso a cargos de
direção nas instituições eclesiásticas; aumento do número de leigos no ofício
de juízes nos processos canônicos; reconhecimento da dignidade dos funcionários
da Igreja e suas instituições e respeito dos seus legítimos direitos (cf. §
77).
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