O BISPO ENTRE A CRUZ E A ESPERANÇA
28/08/2025
Dom Carmo João Rhoden
Bispo Emérito de Taubaté (SP)
Ler o livro Coração de Pastor, de Dom João Bosco
Óliver de Faria, é mergulhar na tensão fecunda que sustenta todo ministério
episcopal: a cruz e a esperança. O autor não esconde as dores, as solidões e os
pesos do episcopado. Mas, ao mesmo tempo, deixa transparecer a esperança inabalável
que vem de Cristo, o verdadeiro Pastor.
Uma das frases mais impactantes é: “O Domingo de Ramos dura
pouco na vida de um Bispo”. Essa constatação, nascida da experiência concreta,
sintetiza a realidade de quem assume o pastoreio. O bispo, em alguns momentos,
é aclamado, reconhecido, aplaudido. Mas logo chegam as incompreensões, as
críticas, a cruz. E é nessa travessia que se prova a fidelidade.
Não se trata de pessimismo, mas de realismo evangélico. O
episcopado não é carreira de prestígio, mas seguimento de Cristo crucificado. O
báculo, insígnia de guia, só encontra sentido quando unido à cruz. O bispo que
deseja apenas aplausos perde o essencial: sua missão é conduzir o povo não ao
sucesso humano, mas ao encontro com Deus.
Dom João Bosco insiste que o bispo não pertence a si, mas ao
povo. Essa entrega é fonte de cruz, porque exige renúncia. Mas é também fonte
de esperança, porque revela a fecundidade do ministério. Quantos padres foram
ordenados, quantas comunidades foram animadas, quantas vidas foram tocadas por
um pastor que se deixou consumir pela missão!
Ao refletir sobre essas páginas, recordei-me das palavras de
São João Paulo II: “O bispo deve ser testemunha da esperança, mesmo quando as
circunstâncias parecem obscurecê-la”. Essa dimensão aparece fortemente no
livro. A cruz não apaga a esperança; ao contrário, é nela que a esperança se
purifica.
O episcopado, visto sob essa luz, não é uma função de
prestígio, mas um caminho pascal. O bispo é chamado a viver o mistério da cruz
e da ressurreição em sua própria carne, para que o povo de Deus possa
reconhecer nele o rosto de Cristo.
Ao concluir a leitura, senti-me convidado a renovar minha
própria entrega. Coração de Pastor nos recorda que, em meio às
cruzes, a esperança permanece. O bispo é homem da cruz, mas também profeta da
esperança. E essa tensão, longe de ser contradição, é a essência mesma do
ministério episcopal.
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