Por Tyler Arnold*
28 de nov de 2025 às 16:45
No verão de 325 d.C., cerca de 300 bispos se reuniram em
Niceia então uma cidade grega do Império Romano no que hoje é parte da Turquia,
para promulgar um credo cristão comum, resolver disputas cristológicas que
surgiram da heresia ariana e promover a unidade na Igreja.
O primeiro concílio ecumênico, conhecido como Concílio de
Niceia, ainda é aceito como autoridade pela Igreja Católica, pela Igreja
Ortodoxa e por muitas denominações protestantes. As crenças comuns ainda
oferecem um forte elemento de unidade num cristianismo que, de outro modo,
estaria fragmentado 1,7 mil anos depois.
No Concílio, os bispos estabeleceram o Credo Niceno, que é a
profissão de fé ainda recitada na missa católica, nas liturgias ortodoxas e em
alguns cultos protestantes. O Credo rejeitou as afirmações heréticas dos
arianos de que Cristo era um ser criado e, em vez disso, confirmou que o Filho
é eternamente gerado pelo Pai e é Deus com o Pai e o Espírito Santo.
O concílio foi convocado pelo imperador romano Constantino —
um convertido ao cristianismo — menos de 15 anos depois de ele ter cessado a
perseguição aos cristãos e lhes ter concedido a liberdade de culto. Ocorreu só
20 anos depois do reinado do imperador Diocleciano, que perseguiu brutalmente
os cristãos pela rejeição deles ao paganismo.
“Esse concílio é uma etapa fundamental no desenvolvimento do
credo compartilhado por todas as Igrejas e comunidades eclesiais”, disse o papa
Leão XIV há duas semanas, falando sobre o 1.700º aniversário.
“Embora estejamos no caminho para o restabelecimento da
plena comunhão entre todos os cristãos, reconhecemos que essa unidade só pode
ser unidade na fé”, disse o papa.
A heresia ariana
O principal objetivo do concílio era resolver uma questão
importante sobre a natureza divina de Cristo e combater o arianismo, heresia
promovida pelo sacerdote Ário que dizia que Jesus Cristo era um ser criado e
não eterno.
“Ário começou a pregar algo que era escandaloso para muitos
cristãos e que parecia incompatível com a fé cristã, conforme testemunhada nas
Escrituras e transmitida pela tradição da Igreja”, disse à EWTN, o padre
dominicano Dominic Legge, diretor do Thomistic Institute e professor de
teologia.
Ário escreveu em Thalia que acreditava que
o Pai "criou o Filho" e "o gerou como filho para si mesmo".
Ele escreveu que "o Filho nem sempre existiu, pois não existia antes de
sua geração". Ele disse que Cristo não era eterno, mas "veio à
existência pela vontade do Pai". Ário disse que Cristo "não é o
verdadeiro Deus", mas sim "se tornou Deus por participação".
Legge disse que Ário entendia que “existe um abismo infinito
entre Deus e as criaturas”, mas seu erro estava em “pensar que o Filho estava
do lado das criaturas desse abismo” e “não era igual a Deus em divindade”.
“Portanto, ele o considerava a criatura mais elevada”, disse
Legge. “A primeira criatura, mas ainda assim uma criatura”.
Legge disse que em Niceia havia “um consenso entre os bispos
com abordagens muito diferentes ao mistério de Deus, e eles perceberam que Ário
estava errado e, portanto, o condenaram e afirmaram que o Filho é Deus de Deus,
verdadeiro Deus de verdadeiro Deus”.
A linguagem adotada em Niceia contradizia expressamente
Ário, dizendo que Cristo é “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não
criado, consubstancial ao Pai”. Condenava a visão de Ário como heresia. A
votação foi quase unânime, com cerca de 300 bispos votando a favor desse texto
e só dois concordando com Ário.
Santo Atanásio, um dos oponentes mais veementes do arianismo
no concílio e no período subsequente, escreveu em seu Primeiro Discurso
Contra os Arianos, em meados do século IV d.C., que "as Escrituras
declaram a eternidade do Filho".
Atanásio disse, por exemplo, que o evangelho de São João diz
que “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.
Ele cita o capítulo oitavo do mesmo Evangelho, no qual Cristo diz que “antes
que Abraão existisse, Eu Sou”, invocando o nome divino usado por Deus para
indicar Sua eternidade quando apareceu a Moisés como a sarça ardente.
“O próprio Senhor diz: Eu sou a Verdade, não Eu me tornei a
Verdade, mas sempre: Eu sou — Eu sou o Pastor — Eu sou a Luz — e ainda: Não me
chamam de Senhor e Mestre? E me chamam bem, pois assim o sou”, escreveu santo
Atanásio. “Quem, ao ouvir tal linguagem de Deus, da Sabedoria e da Palavra do
Pai, falando de si mesmo, hesitará por mais tempo diante da verdade e não crerá
imediatamente que na frase Eu Sou está implícito que o Filho é eterno e sem
princípio?”
Legge disse que santo Atanásio também alertou que a posição
de Ário "ameaçava a verdade central do cristianismo de que Deus se fez
Homem para nossa salvação".
Unificando a Igreja no século IV d.C.
Antes do Concílio de Niceia, os bispos da Igreja fizeram
muitos sínodos e concílios para resolver disputas que surgiam dentro do
cristianismo.
Entre eles, houve o Concílio de Jerusalém, concílio
apostólico detalhado em Atos 15, e muitos concílios locais que não
representavam toda a Igreja. Os concílios regionais “têm uma espécie de
autoridade vinculativa — mas não são globais”, segundo Thomas Clemmons,
professor de história da Igreja na Universidade Católica da América.
Quando o império romano cessou a perseguição aos cristãos
tornou-se possível "a oportunidade de um concílio ecumênico mais
amplo", disse Clemmons à CNA.
Constantino percebeu a necessidade de "um certo senso
de unidade", disse ele, num momento marcado por disputas teológicas,
debates sobre a data da Páscoa, conflitos sobre jurisdições episcopais e
questões de direito canônico.
“O papel dele era unificar e resolver as outras questões”,
disse Clemmons.
A busca pela unidade ajudou a produzir o Credo Niceno, que,
segundo Clemmons, "ajuda a esclarecer o que a linguagem bíblica mais
familiar não esclarece".
Nem o concílio nem o credo foram universalmente adotados
imediatamente. Clemmons disse que a adoção foi mais rápida no Oriente, mas
demorou mais no Ocidente. Houve várias tentativas de revogar o concílio, mas
Clemmons disse que "será a tradição posterior que o confirmará".
“Não sei se a importância disso foi compreendida” na época,
disse ele.
A disputa entre arianos e defensores do Concílio de Niceia
foi tensa no meio século seguinte, com alguns imperadores apoiando o credo e
outros apoiando o arianismo. No fim, disse Clemmons, o credo “convence as
pessoas ao longo de muitas décadas, mas sem a imposição imperial que se
esperaria”.
Foi só em 380 d.C. que o imperador Teodósio declarou o
cristianismo niceno como a religião oficial do império romano. Um ano depois,
no Primeiro Concílio de Constantinopla, a Igreja reafirmou o Concílio de Niceia
e atualizou o Credo Niceno, com textos sobre o Espírito Santo e a Igreja.
Conceitos errôneos comuns
Existem algumas ideias errôneas bastante comuns sobre o
Concílio de Niceia que são frequentes na sociedade moderna.
Clemmons disse que a alegação de que o Concílio de Niceia
estabeleceu o cânone bíblico “é provavelmente o equívoco mais óbvio”. Esse
assunto não foi debatido em Niceia e o concílio não promulgou nenhuma doutrina
sobre a questão.
Outra ideia equivocada, disse ele, é a noção de que o
concílio estabeleceu a Igreja e o papado. Os ofícios episcopais, como o do
papa, bispo de Roma, já existiam e estavam em funcionamento muito antes de
Niceia, embora o concílio tenha resolvido algumas disputas jurisdicionais.
Outra ideia equivocada, segundo Clemmons, é a suposta
“novidade” do processo e das doutrinas. Ele disse que os bispos frequentemente
se reuniam em concílios locais e que as doutrinas definidas em Niceia eram
simplesmente “a confirmação da fé da Igreja primitiva”.
*Tyler Arnold é repórter do National Catholic Register.
Já trabalhou no site de notícias The Center Square e suas matérias foram
publicadas em vários veículos, incluindo The Associated Press, National Review,
The American Conservative e The Federalist.

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