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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Leão XIV na Turquia, onde a Igreja retorna às origens e aprende a ser fermento

A Igreja de Santo Antônio de Pádua, em Istambul, decorada com bandeiras turcas e do Vaticano (Vatican Media)

Dom Massimiliano Palinuro, vigário apostólico de Istambul, descreve a comunidade de sua circunscrição eclesiástica, onde vivem aproximadamente 40.000 católicos, parte dos 60.000 presentes na nação euroasiática. Uma pequena minoria em um contexto predominantemente muçulmano, no mesmo lugar onde Angelo Giuseppe Roncalli foi vigário de 1934 a 1944. "Despojados de poder e visibilidade, somos uma família de filhos de Deus."

Por Massimiliano Palinuro*

Na saudação que o Patriarca Armênio me dirigiu na celebração que marcou o início do meu ministério episcopal em Istambul, ele disse: "Nossas comunidades cristãs na Turquia (Türkiye) são pequenas, mas também um diamante é pequeno. As coisas mais preciosas são sempre pequenas." Esta é a Igreja que o Papa Leão XIII visitará em sua primeira Viagem Apostólica, uma Igreja pequena, mas preciosa, fecunda como uma minúscula semente capaz de gerar nova vida.

Bispo Massimiliano Palinuro, vigário apostólico de Istambul e administrador apostólico de Constantinopla

https://youtu.be/xLVU_Di3eH8

Uma Igreja tão pequena quanto um grão de sal

A Turquia desempenha um papel significativo na complexidade do nosso mundo atual. Ponte entre o Oriente e o Ocidente, encruzilhada de povos e religiões, mosaico de culturas e tradições, esta terra foi justamente chamada de "Terra Santa do Novo Testamento". É esta a pátria do Apóstolo Paulo, e aqui pelo menos seis apóstolos pregaram o Evangelho. Aproximadamente um quarto do Novo Testamento foi inspirado aqui, e foi aqui, em Antioquia, que os discípulos de Jesus foram chamados de cristãos pela primeira vez. Aqui estão os túmulos dos Apóstolos João e Filipe, e a casa de Maria em Éfeso. Aqui foram realizados os oito primeiros concílios, e por meio dos ensinamentos dos grandes Padres da Igreja, a teologia cristã encontrou sua correta formulação.

E, no entanto, após dois milênios, a Igreja aqui permanece apenas uma pequena e frágil minoria, como um punhado de fermento, como um grão de sal.

Dois terços dos aproximadamente 60.000 católicos da Turquia vivem no território do Vicariato Apostólico de Istambul. O vicariato abrange a parte europeia do país e a parte asiática até Ancara. A presença da Igreja Católica Latina é muito antiga e esteve ligada, durante muito tempo, à presença de comunidades estrangeiras que aqui chegaram para o comércio.

O reino latino, fundado após a quarta cruzada (1209), levou à criação do Patriarcado Latino de Constantinopla, que sobreviveu como sé titular até tempos recentes.

A supressão definitiva do Patriarcado, desejada por São Paulo VI, marcou mais um passo significativo rumo à plena unidade com a Igreja Ortodoxa.

A comunidade católica, de fato, durante os últimos dois séculos, foi liderada por um vigário patriarcal, que mais tarde se tornou vigário apostólico.

Pessoas caminham em frente à Mesquita Azul em Istambul, Turquia, em 25 de novembro de 2025.   (ANSA)

Cristãos: 0,6% da população

O último século assistiu a um declínio drástico no número de cristãos. Em 1915, 35% da população do país ainda era cristã, enquanto hoje são apenas 0,6%.

Atualmente, a comunidade católica latina do vicariato é composta por pouco mais de 10.000 fiéis locais e aproximadamente 30.000 fiéis estrangeiros, refugiados ou migrantes. Além dos latinos, há também cerca de 8.000 católicos armênios, caldeus e siríacos, divididos em três ordinariatos que estendem sua jurisdição por toda a Turquia. Outros 10.000 fiéis latinos vivem entre a Arquidiocese de Esmirna e o Vicariato da Anatólia.

Uma comunidade enraizada em suas origens

A pequena comunidade católica, com seus quatro ritos, juntamente com as comunidades cristãs não católicas ainda menores, vive em um contexto predominantemente muçulmano. Aqui, em um contexto minoritário, a Igreja retorna às suas origens, aprendendo a ser sal e fermento. Despojada de poder e visibilidade, a comunidade dos discípulos de Jesus relembra sua identidade original, a de uma Igreja que é "a família dos filhos de Deus". Nossas comunidades, de fato, muitas vezes se assemelham a pequenas igrejas domésticas, como nos primórdios do cristianismo, onde cada pessoa é importante e ninguém se sente alienado.

Em nossas assembleias, se reúnem fiéis provenientes de dezenas de nações diferentes, e somos obrigados a falar línguas diferentes para que o milagre de Pentecostes se renove e cada pessoa possa ouvir a Palavra salvadora ressoar em sua própria língua. Povos diferentes, com culturas e tradições litúrgicas diferentes, se unem para formar o único povo de Deus, a única família dos filhos de Deus. Obviamente, nem tudo é idílico. Em um contexto eclesial tão diverso, momentos de tensão não faltam. No entanto, o fato de todos nos encontrarmos em uma situação minoritária e frágil em um contexto desafiador quase nos "obriga" a caminhar juntos e a nos apoiarmos uns aos outros.

Por essa mesma razão, aqui em Istambul, e em toda a Turquia em geral, o caminho ecumênico está progredindo mais rapidamente do que em outros lugares. Precisamente aqui, onde por razões puramente humanas começou a grande ruptura entre o Oriente Ortodoxo e o Ocidente Católico, também podemos vislumbrar os primeiros sinais de reconciliação.

Antes de ser Papa, São João XVIII foi núncio apostólico na Turquia. Quadro está na Catedral de Istambul.   (AFP or licensors)

O futuro Papa Roncalli esteve à frente do Vicariato por dez anos

Em Istambul, esse caminho de reconciliação começou com Angelo Giuseppe Roncalli, o futuro Papa João XXIII, que liderou o Vicariato de Istambul por dez anos, de 1934 a 1944. Logo depois, outro "profeta do ecumenismo" surgiu no lado ortodoxo, o Patriarca Atenágoras. Após ele, esse caminho continuou com seus sucessores Demétrio e Bartolomeu.

Nos últimos tempos, novos caminhos também têm se aberto para a proclamação e o testemunho do Evangelho. Aqui, por necessidade, a cruz não é empunhada, mas carregada com fé. Aqui, o Evangelho é sussurrado de coração para coração, e a Palavra de Deus é testemunhada pela coerência da vida. Sim, apesar de tudo, aqui também, o Evangelho, em sua pureza, fascina e atrai. Aqui, como em qualquer outro lugar da Terra, aqueles que buscam a verdade a encontram em Jesus. Aqui, o serviço caritativo da Igreja, especialmente dirigido aos numerosos refugiados e migrantes, não pode fazer distinções e deve evitar qualquer ostentação. E o testemunho da caridade incondicional torna-se, involuntariamente, uma preparação para o Evangelho.

Um visitante observa uma reprodução do Concillium Nicaeum (o primeiro concílio de Niceia) do pintor italiano Cesare Nebbia, exposta no museu da Basílica Bizantina dos Santos Padres, em Iznik, em 31 de outubro de 2025.   (AFP or licensors)

Um diálogo fraterno, marcado pelo respeito

Mesmo em nosso diálogo fraterno com os muçulmanos, experimentamos a obra da Graça e vemos sinais de esperança, especialmente no que diz respeito ao diálogo como caminho de crescimento no respeito recíproco.

A visita do Papa Leão XIV foi recebida com particular respeito e apoiada pelas autoridades civis, que também viabilizaram um parque arqueológico em Niceia, atual Iznik, para celebrar o local do Primeiro Concílio. O presidente Recep Tayyip Erdoğan também garantiu que a Santa Missa que encerraria a visita fosse realizada em um local capaz de acomodar um grande número de fiéis, além de assegurar a cobertura das consideráveis ​​despesas.

Os cristãos são, em geral, respeitados e protegidos, e a Constituição turca garante a liberdade religiosa.

A visita de Leão XIV também se insere nesse contexto de respeito e apreço. Portanto, que esta visita seja um incentivo para perseverarmos no seguimento do Senhor Jesus e para olharmos para o futuro com confiança.

Esta fotografia aérea mostra os restos da Basílica Bizantina dos Santos Padres, que afundou na margem do Lago Iznik, em Iznik, em 31 de outubro de 2025. (Photo by Ozan KOSE / AFP)   (AFP or licensors)

*Vigário Apostólico de Istambul

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF