Hugues
Lefèvre - publicado em 28/11/25 - atualizado em
28/11/25
O Papa Leão XIV iniciou ontem uma viagem de seis dias
pela Turquia e pelo Líbano. Após concluir uma primeira rodada diplomática em
Ancara, Leão XIV assume plenamente as funções de chefe de Estado.
Na primeira viagem apostólica de seu pontificado, os 82
jornalistas que viajavam a bordo do Airbus A320neo rumo a Ancara o aguardavam
“como um Messias”. Pouco depois da decolagem, ele apareceu sorridente diante do
mar de câmeras, celulares e microfones. Pouco mais de seis meses após sua
eleição, Leão XIV acrescenta uma nova linha ao seu currículo papal ao cumprir
duas promessas deixadas por seu predecessor Francisco: celebrar os 1700 anos do
Concílio de Niceia, na Turquia, e consolar um Líbano exausto após anos de
crise.
De pé no avião, diante da imprensa, o Papa falou serenamente
em inglês. É provável que as improvisadas coletivas de imprensa das noites de
terça-feira em Castel Gandolfo tenham treinado esse homem que, antes do
conclave, era muito discreto com os meios de comunicação.
Agora, como Papa, ele retoma tradições estabelecidas por
seus predecessores, como a de apresentar aos jornalistas do voo papal as
mensagens essenciais da viagem que se inicia. “Na Turquia e no Líbano queremos
anunciar, transmitir e proclamar o quanto a paz é importante para o mundo”,
declarou aos jornalistas internacionais, antes de mencionar a importância da
“unidade dos cristãos” e da busca pela “harmonia”, apesar das diferenças.
Seguindo os passos do Papa Francisco, percorreu depois o
corredor central para cumprimentar um a um os jornalistas especializados no
Vaticano que viajavam a bordo. Esse momento único de proximidade com o Papa
gerou cenas inusitadas, como ver Leão XIV receber um taco de beisebol — um
presente original para um papa fã dos White Sox de Chicago, sua cidade natal.
No entanto, a cordialidade desse primeiro encontro nas
alturas contrastou com a frieza da recepção em Ancara. Na pista do aeroporto e
ao longo de todo o trajeto do comboio papal, não se percebeu entusiasmo algum.
Sem dúvida, Leão XIV terá de esperar o Líbano para experimentar o impacto que a
visita de um Papa pode ter numa população fervorosa.
Um primeiro discurso muito político
Na capital turca, o Papa assumiu plenamente sua função de
chefe de Estado. Seu primeiro gesto foi depositar uma coroa de flores no túmulo
de Mustafa Kemal Atatürk (1881–1938), fundador e primeiro presidente da
República da Turquia. A iniciativa não é nova — seus predecessores também o
fizeram —, mas adquire forte simbolismo diante da evolução da Turquia de
Erdogan. Enquanto o país viveu, nos últimos anos, uma guinada autoritária e
avança na islamização da sociedade, o Papa prestou homenagem, ao final da tarde,
ao artífice da Turquia laica.
Em seu discurso diante do presidente turco e das autoridades
nacionais, o novo Papa não hesitou em transmitir algumas mensagens de
advertência, ainda que de forma sutil. “Uma sociedade só está viva se for
plural”, declarou sob a majestosa cúpula da Biblioteca Nacional, erguida no
gigantesco complexo do Palácio Presidencial construído por Erdogan.
Esse discurso, de forte peso diplomático, foi a ocasião para
o Papa recordar a responsabilidade da Turquia no âmbito geopolítico. Enquanto o
presidente turco busca influenciar a nova ordem mundial — em particular no
conflito entre Rússia e Ucrânia e na situação em Gaza —, o Papa expressou o
desejo de que o país seja “um fator de estabilidade e de aproximação entre os
povos, a serviço de uma paz justa e duradoura”.
Quanto ao destino das minorias cristãs na Turquia, o Papa
lembrou, com diplomacia, que os cristãos estão presentes no país desde os
primórdios do cristianismo e que “são e se sentem parte integrante da
identidade turca”.
Após a etapa altamente protocolar em Ancara, Leão XIV inicia
amanhã sua peregrinação ecumênica, encontrando seus irmãos cristãos em Iznik.
Diante das ruínas de uma antiga basílica erguida em Niceia — a antiga Iznik —,
recitará o Credo. O chefe do menor Estado do mundo se apresentará, desta vez,
como sucessor de Pedro.


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