UMA VELA POR SEMANA
27/11/2025
Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
Há, no princípio das nossas inquietações, um desejo bom de
preservar a luz que nunca se perde de si. Uma luz que que ilumina por
dentro e devolve em cores mais belas tudo que recebe. Entre o temor de perdê-la
e a sede de possuí-la, o coração humano ergueu muralhas, selou portas,
levantou torres. E, como quem aperta demais o que ama, quebrou aquilo
que pretendia guardar. Daí nasceram suspeitas, palavras
afiadas e dissimulação que nos afastou de nós.
O Advento começa aqui, quando a mão cansada
desiste de trabalhar em muros, e a alma aprende
o difícil ofício de esperar e
fazer reparos. Uma espera produtiva que acende
pequenas chamas no meio de ventanias.
Jesus Cristo vem como Luz que não se fabrica, não se compra,
não se oculta. Cujo brilho não é de pedras raras,
mas dEle mesmo. Tocados por Ele, a esperança, que
parecia definhar sob os golpes da noite, respira sem pressa e
o tempo não é mais inimigo.
Com a luz que se ergue acima dos morros, “Ele nos
ensinará seus caminhos, e nós trilharemos suas veredas”. A subida
começa com uma notícia. O Cristo que vem é juiz manso que mede
sem humilhar, pesa sem esmagar e põe cada coisa no
seu devido lugar. Um lugar que cura.
Do alto dessa bondade forja-se um milagre de
ferreiro e espadas
viram arados, lanças viram lâminas de poda. O metal conserva a
dureza, mas muda de destino. Tudo que feriu a terra aprende a cultivá-la.
Dentro de nós, os talentos domesticados pelo medo reaprendem
o serviço; a inteligência deixa de ser lâmina e torna-se lâmpada; a língua, que
tanto cortou, transforma-se em instrumento de poda para que a vida
frutifique.
O Advento é uma oficina
silenciosa onde, a cada semana, um gesto trocado, um instrumento
convertido, um campo árido volta a receber vida e molda
a coragem que espera o amanhecer.
Quando a noite volta a se espalhar, porque
ela sempre volta, já estamos assegurados pela Luz que não
depende de nós. Ela vem como quem nos conhece pelo nome,
sem barulho, como uma presença que aceita o caniço rachado
da nossa história.
O profeta havia dito: “Caminharemos na luz do
Senhor”, e é nessa luz que caminhamos! Não caminhamos sozinhos,
pois a humanidade que se esfacelava volta
a entender a língua de encontro. A esperança deixou de murmurar e
tornou-se realidade na manjedoura do mundo, porque o mundo todo é uma
manjedoura.
Ainda há sombras altas como as montanhas, há mentiras
que se repetem até a exaustão, há poderes que se vestem de claridade para
melhor cegar. Mas aprendemos com a vela do primeiro domingo que a noite não é
soberana. A chama pequena não vence pelo seu tamanho; vence porque insiste. Ela retorna a cada
sopro, reaparece a cada curva, e, quando as
outras se juntarem a ela a sala inteira ficará iluminada. O Advento nos disciplina
nessa teimosia.
Quando o quarto domingo chegar e a coroa conter
a inteireza de luz, saberemos que a esperança não morreu, porque
foi Deus quem a sustentou enquanto aprendíamos a acreditar.
E, na noite grande do mundo, não
teremos armaduras, nem fórmulas de posse, nem pactos de ferro. Teremos
olhos habituados ao clarão manso, ouvidos treinados na vereda, passos afinados
ao ritmo de quem caminha na montanha. Então, mesmo que o mundo
insista em entoar a velha canção do medo, nós caminharemos na luz do Senhor porque já teremos
sido alcançados por
Ele.

Nenhum comentário:
Postar um comentário